Quando na sexta-feira escrevi sobre a violência nas escolas, não podia imaginar que no dia seguinte o Rio de Janeiro seria o cenário de um espetáculo bárbaro, a mostrar que, infelizmente, não exagero quando falo em guerra civil. Fato revelador de uma realidade social da mais aguda gravidade. Além da morte de pessoas, ônibus incendiados, um helicóptero da Polícia Militar foi abatido. Indica a inegável seriedade da ocorrência. Segundo li, seria de grande calibre a arma utilizada na caça ao pássaro voador. Mas, se o calibre da arma indica a superioridade dos delinquentes, em matéria de armamentos, apenas fornece um ingrediente a agravar o quadro, porque o fato da destruição de um aparelho do Estado, ou seja, da sociedade, é suficiente para descerrar a real situação existente. De modo que, seja qual for a potência da arma usada pelos traficantes para destruir o helicóptero da polícia do Rio, matando três policiais, não há necessidade de arrolar agravante. Se o fato, mesmo sem a agravante apontada, tivesse ocorrido 15 dias antes, o Rio teria sido escolhido para sediar a Olimpíada?

O sucesso do Rio continua em carne viva e está a mostrar a malignidade do fenômeno, desse-lhe o nome que se quiser; o problema não é de rótulo, pois reside na antinomia radical entre ele e a sociedade brasileira. É bom não esquecer que o agravamento do problema carioca teve sua origem na infeliz iniciativa de um ex-governador, com a demagógica ordem “Polícia não sobe em morro”, entregando, assim, parte do território para delinquentes e traficantes. O político já faleceu, mas o problema lá ficou e está cada vez mais vivo.

Sem sair do assunto, mas ficando no que, na falta de melhor denominação, chamo de “tumores” sociais que me preocupam, vem de acontecer em uma das boas cidades gaúchas, de melhores tradições, Santana do Livramento. Ela também tem um centenário hospital, mas tais suas deficiências, suas necessidades insatisfeitas, que cerrou as portas; o certo é que sem condições para atender as parturientes, elas foram endereçadas para a vizinha cidade uruguaia de Rivera. Faz muito que me preocupo com o destino de nossos hospitais, necessários, beneméritos, mas cada vez mais carentes, suas receitas simplesmente miseráveis, enquanto os encargos são crescentes. E, desse modo, uma cidade como Santana do Livramento tem seu hospital fechado e as mulheres vão a Rivera ter seus filhos, uruguaios…

Embora se diga que o Brasil será grande potência dentro de cinco ou seis anos, esta é a situação que o triunfalismo não vê ou faz que não vê. Este o fato que, por si só, demandaria largo desenvolvimento, mas o que foi dito é bastante para retratar uma situação constrangedora e inegável.

Por derradeiro, duas palavras sobre outro assunto. Segundo se proclama, a Petrobras, nossa maior empresa, é uma das grandes do mundo; no entanto, os brasileiros pagam pelos combustíveis que ela elabora, gasolina e diesel, bem mais do que os que vivem em outros países. Pode o dólar cair à metade e menos da metade do que custava, os preços dos produtos da Petrobras são imutáveis. Também o gás que ela distribui tem preços elevados. E quando bens da Petrobras foram invadidos e apoderados pela comandita de “hermanos”, cada um a seu tempo, o Brasil foi de uma subserviência vil, como se o governo pudesse dispor do que lhe não pertence.

As bravatas de solidariedade bolivariana ardem no bolso do cidadão brasileiro. É um dado apenas, a chamar a atenção da nossa realidade, sem desvarios, mas com serena objetividade. Nunca antes na história deste país, tantos estão pagando para suportar as estripulias de tão poucos.

(Zero Hora – 26/10/2009)

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