Impressionou-me a frase que li, há dias, no El Nacional de Caracas, com a qual um leitor qualificava as atitudes de Chávez na cena internacional: “Soberbo ante o império do norte e genuflexo ante os impérios russo e chinês”.

Algo de semelhante se pode dizer de nossa atual diplomacia. As proclamadas atitudes “altivas e pró-ativas”, a que tanto gosta de se referir o Chanceler Celso Amorim, envergonham a tradição diplomática brasileira e não escondem seu acentuado viés ideológico.

Subserviência ante aliados ideológicos

Cumplicidade, subserviência, entreguismo e cinismo têm sido, em diversas ocasiões, as marcas da diplomacia “companheira”, até em prejuízo dos legítimos interesses nacionais.

As atitudes “altivas e pró-ativas” ante os Estados Unidos, são acompanhadas da subserviência cúmplice com a China e com a Rússia. Ou então com os aliados ideológicos da Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguay, Argentina, entre outros.

Basta recordar a humilhação imposta ao País no caso da invasão militar das instalações da Petrobrás na Bolívia, seguida de confisco de ativos da empresa.

Lula defende o autoritarismo chavista

Lula, que tantos se empenham em apontar como a voz da moderação, tem sido, na verdade, conivente – e, portanto, acobertador – com os desmandos institucionais e as atitudes autoritárias dos “companheiros” Chávez, Evo Morales, Correa, etc.

Ainda há dias o Presidente defendeu o modelo institucional do regime chavista, em entrevista à CNN, alegando seu caráter “democrático”.

Isso, quando analistas e políticos, de todo o mundo, apontam a escalada autoritária do venezuelano, com prisões de adversários políticos, desrespeito aos resultados eleitorais, reedição de leis rechaçadas pela população em referendo, esvaziamento do poder de autoridades da oposição, tomada de portos e aeroportos pelas Forças Armadas, criação de milícias civis armadas, tentativas de subjugar a liberdade de imprensa, etc.

Também Marco Aurélio Garcia, assessor especial do Presidente para Assuntos Internacionais, na recente cúpula de Líderes Progressistas, no Chile, defendeu com ênfase o atual populismo na América Latina, citando como exemplo altamente positivo o regime de Chávez.

Cumplicidade com ditaduras

A política externa do Brasil, sob o governo Lula, tem ainda mostrado constrangedoras alianças ou cumplicidades com regimes ditatoriais e até mesmo com o terrorismo.

Na perspectiva da 5ª Reunião da Cúpula das Américas, a ser realizada em Trinidad e Tobago, Celso Amorim afirmou que o grande teste para o Presidente Barack Obama será a relação com Havana.

O Chanceler defendeu o diálogo do governo norte-americano com o regime comunista, “sem condições prévias” (cfr. Folha de S. Paulo, 10.abr.2009). Ou seja, Amorim exige o “diálogo”, com a preservação da ditadura castrista.

Fome, tortura e perseguição

Para entender o que a atual diplomacia lulo-petista entende por “multilateralismo” e para que finalidade advoga um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, vale a pena ler a seguinte matéria da Folha de S. Paulo (27.mar.2009), intitulada Brasil poupa regime norte-coreano na ONU:

* ” O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou ontem uma resolução que condena duramente as “graves violações” dos direitos humanos na Coreia do Norte e exorta a ditadura asiática a rever a decisão de barrar as missões de inspeção da organização. O texto foi adotado sem o endosso do Brasil, que se absteve na votação.

O governo brasileiro vinha sendo pressionado pelo Japão, um dos patrocinadores da resolução, a apoiar o texto. Em gestões feitas em Brasília e Genebra, os japoneses tentavam convencer o Itamaraty de que um voto de abstenção seria uma forma de incentivar os abusos norte-coreanos.

Não funcionou. O Brasil preferiu evitar o confronto e dar uma chance à Coreia do Norte, mesmo depois da apresentação de um relatório repleto de atrocidades cometidas pelo regime. Fome, tortura e perseguição política fazem a rotina de horror dos norte-coreanos, segundo o documento. Uma tirania onde até vestir jeans, usar a internet ou assistir a novelas da Coreia do Sul pode dar cadeia.

A votação era uma das mais esperadas da atual sessão do Conselho de Direitos Humanos, que termina hoje em Genebra. A atenção cresceu com a notícia de que o isolado regime norte-coreano prepara o lançamento de um míssil de longo alcance, o que preocupou os vizinhos. O intuito, diz Pyongyang, é pôr um satélite em órbita.

No final, a resolução foi aprovada com 26 votos a favor, 15 abstenções e 6 contra. O documento “deplora os abusos sistemáticos”, como o uso de tortura e campos de trabalho forçado. (…)

Ao justificar seu voto de abstenção, o Brasil disse que espera que a Coreia do Norte aproveite a “janela de oportunidade” para melhorar sua colaboração com o Conselho. (…)

O país decidiu “dar uma chance” aos norte-coreanos, disse Farani (embaixadora do Brasil em Genebra), diante da promessa de que colaborarão com os mecanismos do Conselho, entre eles o UPR. “Não estamos passando a mão na cabeça deles. Esperamos respostas.”

Após a votação, o embaixador japonês disse que estava “decepcionado” com a decisão do Itamaraty. “Tivemos intensos contatos com o governo brasileiro, aqui e em Brasília, mas não adiantou”, afirmou Sumi Shigeko. Para ele, “não é claro” o motivo da abstenção.

A decisão do Brasil de não condenar regimes acusados de violações graves, como Sudão, Congo e Coreia do Norte, é alvo de críticas de defensores dos direitos humanos. O Itamaraty alega ser mais produtivo buscar o diálogo do que isolá-los.

Na mesma sessão, foram votadas cinco resoluções ligadas ao conflito israelo-palestino, algumas com fortes críticas a Israel. O Brasil votou a favor de todas elas, que foram aprovadas por quase unanimidade.”

Evitar o confronto, buscar o diálogo e dar chances, são as consignas da cumplicidade. Sempre a política de “dois pesos e duas medidas”, a favor dos aliados ideológicos, até mesmo quando estes mantêm campos de trabalhos forçados.

(Publicado também no Radar da Mídia)

Deixe um comentário

1 comment

  1. Everardo Ferreira

    O Brasil tem mantido com Lula a sua reconhecida posição de respeito à soberania dos países. Os interesses brasileiros estã sendo preservados com bastante habilidade e não podemos ver clima para intervenção na Bolívia em razão da privatização das instalações da Petrobrás. Na verdade, nos vimos diante de uma contradição: em práticas que até recentemente nos vitimaram. A Bolívia tinha razões. Nós as reconhecemos, fizemos o melhor acordo para o dois e não tivemos que recorrer às velhas táticas imperiais, de impor pela força as melhores condições comerciais. Estamos revendo as nossas posições em relação ao Paraguai e também em relação a países miseráveis dos quais somos credores. Isso tem dado coerência ao nosso diálogo com os países ricos e o resultado tem sido muito bom. Já somos credores de países mais ricos, respeitando-lhes.