Grisa: “Um país sem agenda?”

"A agenda brasileira ainda é uma versão requentada das reformas realizadas no mundo na década de 1990"

A evolução ou involução do posicionamento de um país no mundo é sempre relativa. Ela depende do quanto este se aproxima ou lidera a agenda e a dinâmica mundial em determinado período, ou se distancia, na prioridade da resolução de desafios internos.

É preocupante constatar que enquanto se centra o debate em disputas de curto alcance e uma repulsa quase generalizada à classe dirigente, existe um total descolamento temático da resolução de problemas e da busca de oportunidades para o Brasil. Se esqueceram os temas estratégicos, o nosso lugar no mundo em meio ao turbilhão político e às perspectivas de uma eleição de 2018 tumultuada com muito debate emocional, moralismo, pós-crise, e, talvez, um ínfimo espaço para os temas realmente críticos para o País e seu lugar no mundo confuso da segunda década do século 21.

Além da agenda política e do debate pré-eleitoral, existe sim, a necessidade de discussão de conteúdo, de uma agenda nacional. Especialmente em um país ainda tão dependente do Estado como o Brasil, a agenda das reformas deve ser tema do setor privado e público. Da mesma forma, o tema da redução do tamanho do Estado não pode ser discutido sem envolver seu principal ator. É preciso que os agentes públicos ou candidatos a agentes se envolvam mais, e não fujam de assuntos polêmicos.

A agenda brasileira ainda é uma versão requentada das reformas realizadas no mundo na década de 1990, pois após o impasse das prioridades dos governos Lula e Dilma, aparentemente rechaçadas, não se buscou nada além de uma de transição frágil e um retorno às propostas e posicionamentos da socialdemocracia ou de terceira via do final da década de 1990.

Existem questões temáticas importantes, políticas nacionais que precisam ser definidas e discutidas em uma perspectiva que vai além do show midiático e dos discursos raivosos: o tamanho do Estado, as contas públicas, o regime do funcionalismo,a seguridade social que realmente podemos ter; a flexibilidade no trabalho (em parte já acelerada pela reforma trabalhista), políticas consistentes de segurança pública e a inserção do País na quarta revolução industrial e sua realidade econômica. Quais os caminhos para buscar e se garantir prosperidade? Como manter a sociedade resiliente e sustentável, continuar a melhorar o padrão de vida dos brasileiros? Ciência, tecnologia, cultura e meio ambiente são realmente assuntos de terceir o plano?

Será que a evolução das redes sociais, do engajamento, da multipolarização da nossa sociedade assegurará um mínimo debate e construção temática no período pré-eleitoral e eleitoral? Ou continuaremos a assistir generalidades, improvisos e uma gestão populista e genérica em que coalizão é sempre mais importante do que a política pública, os rumos, as prioridades? Continuaremos a ter nossos rumos construídos ou arbitrados por vagamente iniciados nos temas? Sim, que ninguém se engane. Política também se faz com um mínimo de policy. E sem policy, sem agenda, não se renova instituição, não se avança.

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