Brasil-EUA, fim ao desperdício

marcos troyjo - nova

Diz-se que a Cúpula das Américas inaugurada hoje (10 de abril) tem relevância ímpar. O encontro reinsere Cuba na moldura diplomática do Hemisfério. É de lamentar, no entanto, que a reunião de Chefes de Estado não seja ainda mais “histórica” e de maior impacto para a região.

Para tanto, seria fundamental toda prioridade àquele que deveria constituir o eixo-central de poder e prosperidade nas Américas: o relacionamento Brasil-EUA.

O potencial cooperativo entre Brasil e EUA é imenso

Forças conjunturais empurram os dois países a uma reaproximação. Apostas da política externa brasileira mostraram-se infrutíferas. Mercosul à deriva. Acordo com europeus ainda incerto. O declínio do preço dos bens primários mundo afora compele o Brasil a alternativas comerciais. É no mercado americano que podemos ancorar revigorada receita exportadora.

Para os EUA, é impossível subestimar o Brasil – segunda maior democracia do Ocidente e segundo PIB das Américas. Washington está tomando um baile da China na Ásia, para onde supostamente migraram seus grandes interesses estratégicos. A adesão de tantos aliados tradicionais dos EUA ao banco de infraestrutura liderado por Pequim convida Washington a olhar novamente para a América Latina, onde a China também estabeleceu forte cabeça-de-ponte.

O desperdício de potencial é marca das relações Brasil-EUA. Na medida em que nenhum tema de relevo encontra-se na pauta bilateral, o peso relativo do episódio da espionagem foi hipertrofiado.

O Brasil, em vez de aproveitar a barbeiragem americana para obter vantagens ante a maior economia do planeta, preferiu ficar de mal. O episódio atrasou o que poderia ser ambiciosa agenda de comércio e investimentos.

O potencial cooperativo entre Brasil e EUA é imenso, não importa para onde se olhe, nos investimentos ou no intercâmbio tecnológico, no turismo ou nas Nações Unidas. O caso do comércio ilustra bem o ponto. Hoje o Brasil vende US$ 25 bilhões ao ano para os EUA. A China exporta anualmente aos americanos vinte vezes mais.

O bate-papo à margem da Cúpula do Panamá ajudará a reconstruir a ponte entre o Planalto e a Casa Branca. Mas apenas voltar a conversar, ou o Brasil predispor-se a mediar a tortuosa relação de Washington com a Venezuela chavista, não representam grande contribuição ao que deve ser o maior interesse do Brasil: o adensamento dos fluxos econômicos com os EUA. Precisamos, no mais alto nível, afirmar nosso desejo em trabalhar por um tratado comercial com os Estados Unidos, seja bi ou plurilateralmente.

Dilma tem pela frente a difícil implementação do ajuste fiscal. Obama precisa lidar com uma maioria republicana no Congresso que não lhe garante apoio automático em algumas de suas iniciativas em política externa como Cuba, Irã, ou mesmo as meganegociações comerciais no Atlântico ou no Pacífico.

A retomada Brasil-EUA é de construção longa e difícil. O mais importante agora é apertar o botão de “reiniciar”.

Fonte: Folha de S.Paulo, 10/04/2015.

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