Breve história da desglobalização

No período que podemos chamar de “globalização profunda” (1992-2008), o mundo parecia cada vez mais um livre mercado global, com democracias representativas em expansão e países se coordenando para blocos regionais.

Se estes eram os objetivos, estamos mais distantes deles do que 20 anos atrás. As políticas industriais — e não apenas em países como Brasil, Rússia, Índia e China, mas mesmo na Europa e Estados Unidos — se tornaram mais restritivas à “exportação de postos de trabalho” e mais voltadas ao conteúdo local.

O “Brexit” e Donald Trump são elementos novos na paisagem dos últimos meses, mas desde 2008 é crescente o risco de desglobalização. Aquilo que o filósofo e cientista político Francis Fukuyama chamou de “fim da história”, ou que poderíamos classificar como “supremacia do Ocidente”, talvez ainda não tenha terminado, mas está em xeque.

Trump quebra uma tradição histórica, em que a maior economia do mundo é também a voz mais potente na defesa do livre comércio. Não houve sequer um presidente americano, de Harry Truman (1945-1953) a Barack Obama (2009-2017), que não tenha defendido a abertura comercial.

A primeira consequência dessa retração foi o abandono do TPP (Parceria Transpacífico), um acordo que envolvia não apenas tarifas e cotas, mas padrões e regras que se estendiam a áreas como a trabalhista, a ambiental, a propriedade intelectual e a de compras governamentais. Em paralelo, há uma política industrial “desglobalizadora”.

Quando a General Motors não puder sair dos Estados Unidos para montar uma fábrica na Índia, isso representará uma reversão das cadeias globais de produção e da eficiência trazida pela lógica das redes de suprimento mundiais. Aí, temos o principal elemento dessa “desglobalização”.

Nesse contexto, uma guerra comercial passa a figurar como incomodamente possível. Se houver uma disputa cega entre as duas maiores economias do mundo — a dos EUA e a chinesa —, é plausível pensar que a lógica da escalada que conhecemos durante a Guerra Fria pode se reproduzir no âmbito do comércio, com imposição de tarifas punitivas e retaliações mútuas e crescentes.

É um cenário perigoso, e os norte-americanos têm tanto a perder nesse jogo quanto os chineses e o resto do mundo.

A tese esposada por alguns de que o Brasil vai sofrer pouco se houver uma guerra comercial é bobagem. Qual o principal destino das exportações brasileiras? A China.

Se, por meio de barreiras unilaterais impostas pelos norte-americanos ou outro tipo de contencioso comercial, a perspectiva de crescimento da economia chinesa cair, isso vai afetar o preço das commodities brasileiras num primeiro momento e, provavelmente, resultar em encomendas menores.

O argumento de quem acha que o Brasil sofreria pouco em um mundo menos globalizado se baseia no fato de que nossa economia já é fechada e nosso mercado consumidor é potencialmente grande.

Mas a China dispõe de um mercado interno muito maior do que o nosso, mas todo o “milagre chinês” — maior resgate de pessoas da pobreza da história da humanidade — foi feito graças à globalização, com base na pujança das exportações e do comércio internacional. Não foi com base no mercado interno.

Ademais, teoricamente, só é possível explicar pujança no mercado interno com economia fechada se observadas enormes expansões de produtividade do trabalho e do capital — que não existem no Brasil.

Nossos ganhos de produtividade são baixíssimos comparados aos de outros países. Então, esta lógica não funciona. Ela é uma espécie de “desculpa estratégica” daqueles que não fizeram acordos internacionais. Se um acordo como o TPP vai a pique, tem quem diga: “Está vendo? Não adiantava ter se mexido”.

Minha aposta é a de que a desglobalização vai durar menos do que se está supondo. É verdade que Trump está com boas cartas na mão. O desemprego nos Estados Unidos está baixo, entre 4,5% e 5%. O crescimento americano não é impressionante, mas aceitável pelos padrões da OCDE neste momento.

Ou seja, Trump surfa ondas melhores que as que se apresentaram a Obama ou Bush. Não há uma crise bancária como a de 2008 nem uma crise de dívidas soberanas como a de 2011. E, no curto prazo, o mercado de ações reage positivamente às notícias de desoneração tributária.

Se Trump promover um pacote de estímulo à infraestrutura, isso também vai gerar investimentos de curto prazo importantes. Mesmo o protecionismo que impede empresas americanas de sair dos Estados Unidos mantém empregos no curto prazo e tem efeito positivo, sobretudo do ponto de vista do consumo.

Qual é então problema? Por que a desglobalização deve durar menos do que calculamos? Ora, os EUA, ainda protagonistas, vão perder capacidade exportadora, eficiência; vão dirimir os benefícios de contar com uma cadeia global de suprimentos. Tudo isso cobrará seu preço de uma maneira pesada para os Estados Unidos. Isso deve abreviar o ciclo de desglobalização.

Num futuro nada distante, os números corporativos começarão a cair. Ficarão mais claros os custos do protecionismo, do conteúdo local, de uma política industrial sustentada na substituição de importações.

Se houver, e essa hipótese é enormemente provável, uma retaliação por parte dos parceiros comerciais dos Estados Unidos, isso também afetará negativamente a performance global das empresas norte-americanas.

Vamos supor que você seja um diretor de planejamento estratégico da Toyota, e estava cogitando montar uma fábrica de motores em Monterrey, no México.

Como não sabe o que vai acontecer com o Nafta, você puxa o freio de mão do investimento. Isso não significa que a fábrica será montada em Kansas City. O investimento pode simplesmente não acontecer. A pausa é pior do que o pânico.

E tal pausa pode machucar a economia dos EUA ao frear fluxos de investimentos estrangeiros diretos. E lembremo-nos de que, mesmo para o capital chinês, o principal destino de investimento direto são os EUA.

Isso quer dizer que, se houver um aumento das rusgas comerciais, não é apenas a troca de mercadorias a sofrer, mas também a corrente de investimentos. Tudo isso, no médio prazo, vai cobrar seu preço da presidência de Trump. Por isso, os custos de ineficiência da desglobalização vão conduzir o mundo, mais rapidamente do que se supõe, a uma reglobalização.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 22 de março de 2017.

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