Domingo, 4 de dezembro de 2016
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“Brexit” mostra limites de um mundo “pós-internacional”

Os britânicos respondem nesta quinta-feira (23) se pretendem permanecer na União Europeia (UE) ou ela deixar. Qualquer que seja o resultado, toda a acirrada dinâmica do referendo evidencia as fissuras hoje presentes em praticamente todos os processos de integração regional ao redor do mundo.

No início dos anos 1990, a integração era um dos vetores dominantes de uma “globalização profunda”. Ao lado de cânones ocidentais —como a prevalência da economia de mercado e a democracia representativa—, a integração sinalizava um mundo “pós-internacional”. É dizer, a relação entre estados-nação poderia deixar de ser necessariamente a geometria dominante dos fluxos de poder e prosperidade globais.

O cientista político Samuel Huntington, argumentava, a propósito, que o jogo do poder e da riqueza mundial já contara com uma fase “pré-internacional”.

Em suas conhecidas formulações sobre o “choque entre civilizações”, Huntington relembra que os conflitos —a contar dos Grandes Descobrimentos e do Renascimento— travavam-se entre príncipes e apenas com a chamada Paz de Vestfália, em 1648, surgiram as condições para o estabelecimento de um sistema europeu de Estados-nação.

Aliás, Huntington também apostava num futuro “pós-internacional”. Entendia que o Estado-nação perderia espaço para as “civilizações” no protagonismo da cena global.

Numa perspectiva mais institucionalista dos que analisam as megatendências mundiais, o Estado-nação também tenderia a perder sua predominância na expressão de povos e regiões. E a globalização profunda da década de noventa mostrou isso na Europa, mas também em muitas outros quadrantes.

É do início dos anos 1990 o Tratado de Maastricht na Europa. Também o Tratado de Assunção que conforma o Mercosul e o Nafta (sigla em inglês para Área de Livre Comércio da América do Norte). E muitos desses movimentos apontaram para uma ambição que vai além da simples liberalização comercial ou da constituição de uniões aduaneiras.

O atual passaporte brasileiro é um bom exemplo. Abaixo do brasão da República, a inscrição “República Federativa do Brasil”. Acima dele, Mercosul. Ou seja, uma realidade que projeta também uma ideia de integração jurídica e política.

Se muitos brasileiros já reclamam das “mão atadas” ao negociar acordos comerciais internacionais (que em princípio devem ser negociados utilizando-se a plataforma comum do Mercosul), o que dizer então dos britânicos, de memória imperial e predileção por uma gestão anglo-americana dos assuntos mundiais?

Quando rolarem os dados que definirão a sorte do Brexit, além do descontentamento com a burocracia de Bruxelas e a suposta perda de soberania britânica, os “saidistas” também terão em mente o problema da imigração maciça à Europa resultante de tragédias humanitárias na África e na Síria e uma tendência, nesse mundo de baixo crescimento, a abraçar práticas de protecionismo comercial e de menores correntes de investimento.

É isso o que mostram dois estudos lançados nesta semana — o Relatório sobre Investimento Global realizado pela UNCTAD e também um relatório sobre como as economias do G20 têm exponencialmente adotado medidas restritivas ao livre comércio.

Este mundo que insiste em se definir prioritariamente pelo Estado-nação foi reforçado com a crise de 2008. E hoje, além do crucial voto britânico, todos acompanham com preocupação as eleições de novembro nos EUA e as que se realizarão na França e na Alemanha no ano que vem —todas com a tentação sombria do isolamento.

O corolário de muitos desses movimentos de reafirmação nacional vai além da simples reação à integração regional. No limite, é prova, mesmo no âmbito das grandes potências, de um grande desconforto com a globalização.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 22 de junho de 2016.

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