Domingo, 4 de dezembro de 2016
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Brics e a armadilha do ‘Grande Jogo’

Quando os Brics se reunirem na cúpula de chefes de governo em Ufá, na Rússia, nesses próximos dias, eles terão atingido alguns marcos relevantes.

Criaram duas importantes ferramentas de governança econômica – um mecanismo de socorro a eventuais crise de liquidez e um banco de desenvolvimento. Ambas as iniciativas, cada qual com montante de recursos que pode chegar na atual configuração a US$ 100 bilhões, são o que de mais novo existe em termos de construção institucional vindo de países emergentes em diferentes continentes.

O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês) pode ser ainda mais inovador. A depender da definição de suas regras de operação e plano de trabalho, a instituição prestará serviços não apenas a governos nacionais, mas também a uma clientela de diferentes perfis institucionais nos setores público e privado.

Exemplo: iniciativa de uma empresa brasileira de software em associação com uma companhia chinesa de gestão de águas públicas poderia obter do NDB recursos para um projeto de saneamento junto ao governo do Estado do Rajastão, na Índia. Assim, a nova agência de financiamento do desenvolvimento contemplaria não apenas entidades de diferentes nacionalidades e natureza institucional, mas também com um escopo geográfico transcontinental.

A reunião de Ufá, no entanto, é marcada também por alguns constrangimentos. Um deles, mais óbvio, é o marcante desapontamento com o subdesempenho econômico de Rússia e Brasil. Além disso, se Moscou tem de arcar com o preço de sua política para a Ucrânia, o Brasil é visto como enredado num impasse de disfuncionalidade e escândalos políticos que atravancam sua retomada econômica.

O outro, de caráter mais abrangente, diz respeito à utilização dos Brics como caixa de ressonância antiocidental. Esse viés crítico pode se dar sobretudo na declaração que geralmente é emitida ao final da cúpula. Tal comunicado atenderia majoritariamente aos interesses russos.

Num contexto em que Moscou tem sua interlocução com EUA e Europa restringida pelas sanções econômicas decorrentes da anexação da Crimeia, o Kremlin adoraria apoiar-se nos ombros dos demais Brics – e, portanto, legitimar suas ingerências na Ucrânia.

O temor de que a Rússia busque cada vez mais “geopolitizar” o rumo dos Brics foi reforçado pelo fato de que, também em Ufá, Putin é simultaneamente anfitrião de uma outra cúpula. Trata-se de reunião da Organização para a Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês) entidade que reúne Rússia, China, Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão. Ou seja, o núcleo da Ásia Central.

A realização da cúpula da SCO junto à dos Brics chamou a atenção de Kathrin Hille, correspondente do “Financial Times” em Moscou. Nessa suposta guinada a objetivos mais manifestamente geopolíticos que atendem ao Kremlin, a jornalista britânica ouviu “ecos do Grande Jogo”.

Assim ficou conhecida a competição por influência na Ásia Central entre os impérios russo e britânico no século 19. Em muitas ocasiões, a expressão “Grande Jogo” também foi utilizada para marcar a Guerra Fria, verdadeiro “jogo de soma zero”.

O país precisa incrementar relações com a Europa. Deve ainda apostar na expansão de seu intercâmbio com os EUA

Numa outra dimensão, caso a cúpula dos Brics também venha a vocalizar críticas incisivas à maneira com que as lideranças europeias lidam com o impasse na Grécia, estaria reforçada a dispersão de foco dos Brics, cuja atenção deveria centrar-se na boa implementação de suas nascentes instituições econômicas.

Esse anseio russo de instrumentalizar os Brics como plataforma anti-Ocidente é mais conjuntural e retórico do que realmente efetivo. Ainda que contasse com uma adesão chinesa ao que considera que deve ser a configuração de poder no mundo, Moscou não tem nem de perto as condições de disputar um “Grande Jogo” em escala planetária.

Mesmo assim, o Brasil não pode adotar agendas que não são suas. O país precisa incrementar relações com a Europa. Deve ainda apostar na expansão de seu intercâmbio com os EUA, sobretudo após o novo patamar de entendimento resultante da recente visita presidencial.

Assim, cabe ao país trabalhar para evitar qualquer armadilha que venha afastar os Brics de seus promissores objetivos econômicos. Não podemos enveredar pelo discurso em prol de uma configuração geopolítica que pouco atende aos interesses brasileiros.

Fonte: Folha de S. Paulo, 8/7/2015

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