A busca de um acordo difícil

Luiz Felipe Lampreia (nova)

A enorme complexidade das negociações internacionais sobre o programa nuclear iraniano não impediu que fossem anunciadas na quinta-feira passada as bases de um acordo definitivo. É um feito, já que, nos últimos 12 anos, houve diversas tentativas malogradas.

Para os Estados Unidos e seus parceiros, o objetivo principal era convencer o Irã a aceitar limitações profundas em seu programa nuclear. Conseguiram. O Irã fez concessões que, se implementadas, vão inviabilizar, ou pelo menos retardar muito, a busca da capacidade de fazer uma arma nuclear. Segundo o acordo provisório de Lausanne, o país poderá continuar a enriquecer urânio em menores quantidades, mas será obrigado a abrir mão da maior parte do atual estoque de material físsil e a reduzir sua capacidade produtiva, fechando ou limitando o escopo de suas instalações atômicas. Tudo isso sob intensa verificação da Agência de Energia Nuclear, de Viena. Neste sentido, os Estados Unidos e seus aliados do Conselho de Segurança e a Alemanha obtiveram um resultado muito importante.

Para o Irã, o objetivo principal é o levantamento progressivo das sanções drásticas que lhe foram impostas ao longo dos anos e que constituem um sério fator de estrangulamento da economia iraniana. Não está claro até que ponto ocorrerá o levantamento completo. Portanto, o Irã teve menos vantagens até aqui.

Por mais paradoxal que pareça, a despeito do resultado positivo em assunto tão sensível, o Congresso americano dá sinais de que não vai aprovar o acordo de Lausanne. Após o discurso do premier israelense Netanyahu ao Congresso americano, com o patrocínio dos republicanos, ficou caracterizada a enorme força política de Israel e demonstrado que, para ser aprovado, o acordo terá que superar uma forte barreira. Com isso, os Estados Unidos perdem força na fase final da negociação, porque fica claro que sua voz se acha dividida.

Estão, de todo modo, lançadas as bases para um acordo definitivo, que será muito importante em termos de não-proliferação nuclear e de equilíbrio regional no Oriente Médio

Quanto ao Irã, antes de mais nada, é preciso esperar a palavra do líder supremo, aiatolá Khamenei, e a reação dos maiores opositores a um entendimento. Será o levantamento das sanções um objetivo tão fundamental que justifique a abdicação de partes importantes do programa nuclear? Certamente, uma parte considerável do núcleo central do poder iraniano não pensa assim e vai fazer forte objeção ao acordo de Lausanne.

Outro elemento muito importante será a tradução dos parâmetros já anunciados em um texto detalhado, o que não será tarefa fácil porque, como se sabe, o diabo mora nos detalhes. O Irã vai tentar debilitar as diretrizes sobre a mesa e seus contendores vão procurar reforçar a verificação dos compromissos e amarrar os dispositivos de Lausanne.

Estão, de todo modo, lançadas as bases para um acordo definitivo, que será muito importante em termos de não-proliferação nuclear e de equilíbrio regional no Oriente Médio. Resta ainda um caminho difícil. Embora o acordo seja claramente melhor para os Estados Unidos e seus parceiros, superar a tenaz resistência da maioria republicana do Congresso e de Israel vai exigir de Obama uma imensa capacidade política. No momento, é incerto que Obama, em fase descendente, possa ter êxito. Por tudo isso, pode-se dizer que o acordo definitivo, previsto para junho próximo, está longe de ser uma certeza.

Fonte: O Globo, 7/4/2015

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