Domingo, 11 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

A cada 13 anos, no mesmo lugar?

Em 1989, a seis meses da eleição presidencial, meu saudoso amigo Amaury de Souza e eu encasquetamos de fazer uma pesquisa algo fora dos padrões habituais da sociologia política.

Antevíamos, como todo mundo, que logo adiante o Brasil teria de encarar uma pedreira. Vivíamos os estertores do quinquênio Sarney, durante o qual a inflação aplicara goleadas impiedosas nos sucessivos planos heterodoxos que ousaram enfrentá-la. Mailson da Nóbrega, o último ministro da Fazenda, sabiamente se propusera a executar só um “feijão com arroz” – quer dizer, um banho-maria, preocupando-se tão somente em evitar que a coisa desandasse antes da hora. Os eflúvios de legitimidade que certas almas caridosas haviam esperado da Constituinte não se mostraram tão abundantes. Para a sucessão de Sarney 22 candidatos se apresentaram. Uma cacofonia de dar gosto, mas os sebastianistas de plantão não se deram por achados: a “primeira eleição presidencial direta depois de 29 anos” com certeza iria repor o Brasil nos eixos.

Eixos? Que eixos? – Amaury de Souza e eu nos perguntávamos. Não chegávamos ao extremo de ver o Brasil como um país congenitamente sem eixo, mas naquele momento não enxergávamos nenhum eixo; pior, nada víamos que se assemelhasse a uma ferramenta ou um modus operandi que ao fim e ao cabo pudesse dar à luz um eixo. Víamos, como já foi dito, uma cacofonia louca. Uma “hemorragia de discursos” – para lembrar uma expressão de Afonso Arinos; e enquanto o falamento prosseguia, a inflação, o empobrecimento de milhões e a descrença de todos só faziam aumentar.

Quais seriam (quais são, melhor dizendo) as raízes desse interminável desacerto brasileiro? Mesmo sendo brasileiro, terá Deus nos aquinhoado com uma elite infantiloide, incapaz de enxergar os problemas e de agir concentradamente sobre eles? Ou, quem sabe, uma elite feita à imagem e semelhança de Maria Antonieta, uma sinistra mescla de ignorância, indiferença e crueldade? Ou, ainda, uma elite tão aferrada a divisões figadais, a malquerenças paralisantes, a radicalismos ideológicos capazes de liquidar no nascedouro todo e qualquer aceno ao entendimento?

Quais seriam (quais são, melhor dizendo) as raízes desse interminável desacerto brasileiro?

Quem poderia responder a essas questões senão a própria elite? Pois levemos nossas dúvidas a ela, ora bolas! Assim nasceu o projeto: uma pesquisa sobre as percepções, os sentimentos e as expectativas da elite acerca de seu próprio país. Que tal obrigá-la a voltar um pouco no tempo e nos explicar o que ela valoriza e o que despreza em nossa formação nacional? Que tal destrinchar as dezenas de dúvidas que os constituintes fixaram no papel, mas lá estavam como um emaranhado suspenso no ar? E o que ela esperava, evidentemente; teria toda ela entrado no embalo de que a “primeira eleição direta após 29 anos” seria, finalmente, a pedra filosofal que nos conduziria pela larga estrada do desenvolvimento e do bem-estar social?

Recursos para custear o empreendimento: esse, como sói acontecer, era o primeiro problema a resolver. Resolveu-o rapidamente o economista Peter Knight, à época diretor da Fundação Ford. O segundo problema foi compor uma amostra da elite brasileira. Não nos podendo valer da atualíssima teoria petista da “zelite”, optamos pelo caminho mais simples. Elaboramos uma lista enorme e dela selecionamos 500 nomes, classificados em oito setores: deputados e senadores, a alta administração civil, empresários, líderes sindicais, intelectuais, jornalistas e empresários de comunicação, integrantes do alto clero católico (da CNBB, basicamente) e oficiais-generais das Forças Armadas.

Repetimos a operação em 2002. Não preciso dizer que o país era outro. O governo Fernando Henrique Cardoso havia estabilizado a economia, recuperado a credibilidade internacional do país e estabelecido as bases para um programa sério de política social. O problema era que, decorridos 13 anos da primeira pesquisa, o partido de número 13 chegara ao poder. O clima do país era de muita confiança, mas o 13 do Lula era uma fonte de graves inquietações. Era mister atenuá-las e isso o PT fez de forma impagável. Deu a conhecer sua Carta ao Povo Brasileiro: um primor de eufemismo, pois o calmante, quem o reclamava não era o povo em geral, eram os mercados, e não primordialmente os mercados brasileiros.

Escusado dizer que não encontramos uma elite infantilizada, nem maria-antonietizada e muito menos paralisada por malquerenças ideológicas. Encontramos, isso sim, tanto em 1989 como em 2002, uma elite-espelho-do-Brasil. Um país que vive aos solavancos, tentando harmonizar a democracia e o desenvolvimento dentro de um arcabouço institucional discutível, para dizer o mínimo, e agora se vê a braços com três problemas adicionais de bom tamanho: uma classe política em franca deterioração, uma crise econômica de dimensões amazônicas, fruto de sapiências e mais sapiências, e um quadro social que se agrava a olhos vistos.

Sobre este último, vale a pena lembrar uma pergunta que fizemos nas duas ocasiões – 1989 e 2002 –, sem nada alterar no enunciado: “Se dentro de dez anos o Brasil não tiver reduzido substancialmente a pobreza e as desigualdades sociais e regionais, a que riscos o sr. considera que o país estará sujeito?”. O entrevistado devia considerar as seis alternativas mostradas na tabela e responder se tais cenários não tinham chance alguma de acontecer, se poderiam acontecer com muita chance ou se ocorreriam com alta probabilidade, ou seja, quase com certeza.

Cenários: 1) Retorno dos militares ao poder: 55 em 1989 e 10 em 2002; 2) uma situação de apartheid social: 60 em 1989 e 57 em 2002; 3) quebra da unidade territorial: 24 em 1989 e 9 em 2002; 4) um estado crônico de convulsão social: 85 em 1989 e 68 em 2002; 5) tomada do poder por algum grupo extremista: 63 em 1989 e 25 em 2002; e 6) inviabilização da economia de mercado: 89 em 1989 e 50 em 2002.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 7/11/2015

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