Prossegue o mergulho do dólar em águas profundas. Sua cotação cede praticamente contra todas as moedas nos mercados internacionais. Mas a queda é particularmente impressionante, quem diria, contra o real. Um desabamento tão intenso e tão prolongado não ocorreria sem que houvesse bons fundamentos por trás do processo. O superaquecimento da economia mundial ao longo dos últimos cinco anos pressionou os preços dos recursos naturais, reforçando o choque favorável aos preços relativos das commodities gerado pelo ingresso de 3 bilhões de eurasianos nos mercados globais.

Mas os bons ventos sopram também em dimensões anteriormente impensáveis. Por exemplo, uma comparação entre a atuação do Federal Reserve americano e a do Banco Central brasileiro durante os últimos anos revela, novamente quem diria, um complacente “calça-frouxa” nos EUA e um exímio praticante da austeridade monetária preventiva no Brasil. Nosso BC quebrou a espinha da inflação, fortaleceu o real e promove agora a queda dos juros. Já o Fed ressuscitou a ameaça inflacionária, dissolveu a cotação do dólar e agora teve de recorrer a juros elevados.

Outra comparação favorável envolve a diferença de crescimento entre nossas economias. Os EUA estão no fim de um ciclo longo, enquanto o Brasil pode estar no início. A economia americana desacelerou de 5% ao ano para algo em torno de 2,5%, enquanto a brasileira registra percurso inverso, com reaceleração do patamar de 2,5% para algo em torno de 5% em 2007. O crescimento atrai mais investimentos externos, tanto diretos (das multinacionais) quanto os de portfólio (aplicações em bolsas).

O Brasil é um país singular até mesmo em sua prática de câmbio flutuante. Com o excesso de gastos públicos, legislação trabalhista obsoleta e encargos previdenciários proibitivos, mesmo um bom regime cambial tem efeitos deformadores sobre a economia. Essa perversa combinação pode decapitar diversos segmentos industriais e desestimular setores críticos para a geração de empregos, como turismo, móveis, calçados, têxteis e mesmo serviços de terceirização de mão-de-obra para as plataformas de empresas globalizadas.

A solução seria controlar os gastos públicos e aprofundar as reformas trabalhista e previdenciária. Ou, na ausência das reformas, um paliativo seria a fórmula asiática que ensaiamos parcialmente: aumentar o ritmo de acumulação de reservas, reduzindo o prêmio de risco do país, e, com o congelamento dos gastos públicos, derrubar vertiginosamente os juros. Ou seja, em vez de gastos públicos em expansão, juros lá em cima e câmbio cá embaixo, seriam controlados os gastos públicos, com a folga fiscal financiando maior ritmo de acumulação de reservas, segurando o câmbio lá em cima e fazendo desabar os juros.

Trata-se, no fundo, de uma decisão a respeito de quem comanda a dinâmica de crescimento e de geração de empregos. De um lado, os gastos públicos, ou, de outro, maiores investimentos privados e maior ritmo de crescimento das exportações e dos substitutos de importações, por meio de juros mais baixos e câmbio “asiático”.

<i>(O Globo, 16 de julho de 2007)

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