A capacidade de tapar buracos vale mais do que as posições nacionais

Ricardo Galuppo

Sob o ponto de vista do acúmulo de capital político, os dois grandes vencedores das eleições deste ano foram Eduardo Paes (PMDB), reeleito prefeito do Rio de Janeiro com 64%, e José Fortunati (PDT), que venceu em Porto Alegre com 65% dos votos válidos.

Percentuais como esses são difíceis de ser obtidos em qualquer disputa majoritária – e muito mais ainda em primeiro turno. São números que só se explicam porque tanto Paes quanto Fortunati foram percebidos pela população de suas cidades como solução para os problemas que realmente interessam nesse tipo de disputa: o da fila nos hospitais públicos, o da qualidade nas escolas e de outros serviços como esses.

E isso falou mais alto no domingo passado do que qualquer vinculação a temas nacionais que muitos insistem em trazer para o palco nas disputas municipais.

Que isso sirva de lição para as próximas disputas: nas eleições para prefeito, o que conta mesmo é a confiança que o candidato transmite como gestor público. Isso vale mais do que as posições do candidato em relação aos grandes temas nacionais.

De todos os níveis de governo, nenhum é avaliado com mais rigor do que o municipal

Ninguém pode afirmar, como vem sendo feito pelos “analistas políticos” de plantão, que o PSB, do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, saiu-se laureado do pleito por ter conseguido eleger Geraldo Julio, no Recife, e reeleger Marcio Lacerda em Belo Horizonte.

Se Julio não fizer uma administração decente e se Lacerda tiver no segundo mandato uma avaliação pior do que a do primeiro, seu apoio a quem quer que seja nas próximas eleições presidenciais pode deixar de ser um trunfo e transformar-se num fardo.

Esse é o ponto que interessa: de todos os níveis de governo, nenhum é avaliado com mais rigor do que o municipal. O eleitor sabe se o prefeito é bom ou ruim pela quantidade de lixo acumulado nas ruas, pelo número de buracos nas ruas e por outros indicadores de aferição imediata.

Ninguém é ingênuo de ignorar o peso do apoio de um (ou uma) presidente da República ou governador do estado na eleição municipal. Quando eles são bem avaliados, acabam se tornando fiadores de um candidato a prefeito.

Sem o apoio de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff, o candidato do PT Fernando Haddad jamais teria chegado aonde chegou nas eleições de São Paulo.

É por essa razão que a vitória de Eduardo Paes tem um valor tão expressivo. Nas eleições de 2008, ele só chegou à prefeitura porque foi apoiado de forma ostensiva por Lula e pelo governador Sérgio Cabral. Desta vez, o cenário foi outro.

Cabral perdeu prestígio em relação a quatro anos atrás e Lula quase não foi visto no Rio de Janeiro ao longo da campanha. O que deu a Paes a vitória foi a administração que realizou.

A partir de agora, ele deixa de ser um político que depende do apoio alheio e entra para o time daqueles cujo apoio passa a ter peso em outros pleitos.

Fonte: Brasil Econnômico, 09/10/2012

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1 comment

  1. Marco Antonio

    Parece-me que o articulista não vive ou conhece a cidade do Rio de Janeiro. A qualidade do atendimento no quesito saúde e educação básicos continua péssima. Muito marketing, uma rede de apoios de 20 partidos, muitos recursos e tempo de TV, uma ou outra obra aqui e acolá para satisfazer o grande público. Lastimável.