Capital social e crescimento

“Quase toda transação comercial tem um elemento de confiança. Muito do atraso no mundo pode ser explicado pela falta de confiança mútua”. Kenneth Arrow.

O Brasil e outros países da América Latina estão com sérios problemas de crescimento no longo prazo. Esses países pararam de crescer de forma sustentada a partir dos anos 80, quando caíram na armadilha da renda média. É relativamente fácil passar de uma situação de pobreza para a de renda média por meio do processo de urbanização e industrialização. Mas é bem mais difícil aumentar a produtividade quando a maior parte da população já está nas cidades trabalhando na indústria e nos serviços. A partir desse estágio é necessário que o país tenha instituições e valores que favoreçam o crescimento. Algo que a maioria dos países latino-americanos não tem.

Várias pesquisas recentes mostram que os valores culturais que prevalecem nos países têm impacto no seu crescimento econômico, no desenvolvimento do sistema financeiro, nas inovações e na organização das empresas. Um dos valores que mais importam é a confiança que a população tem nas pessoas fora do seu círculo mais próximo (trust). Essa é uma medida bastante utilizada do capital social de um país.

O grau de confiança pode ser medido através de perguntas que são feitas em pesquisas sobre valores e atitudes em vários países. A pergunta que geralmente é feita é: “Em geral, você diria que a maioria das pessoas são confiáveis ou que você precisa ser bastante cuidadoso quando lida com outras pessoas?”. O gráfico ao lado compara a porcentagem de pessoas que responde que “a maioria das pessoas são confiáveis” em alguns países selecionados.

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O Brasil se destaca por ser um dos países em que as pessoas menos confiam nas outras, juntamente com a Colômbia. Somente 7% das pessoas entrevistadas dizem que a maioria das pessoas são confiáveis no Brasil e 4% na Colômbia. Por outro lado, Noruega, Holanda, Suécia e China são países em que as pessoas confiam muito umas nas outras. Isso ajuda a explicar por que os países latino-americanos não conseguem sair da armadilha da renda média.

Esse baixo nível de capital social afeta o Brasil de várias formas. Em primeiro lugar, países com baixa confiança têm sistemas financeiros menos desenvolvidos, porque as operações financeiras basicamente envolvem promessas de receber dinheiro no futuro. Se as pessoas tem dúvidas se vão mesmo receber esse dinheiro de volta, o empréstimo não é realizado. Isso ajuda a explicar porque o crédito é tão baixo no Brasil.

Além disso, a falta de confiança diminui as inovações, que são investimentos de retornos incertos e que dependem fortemente de direitos de propriedade e de contratos. A própria formação e organização das empresas depende muito da confiança. Dificilmente as pessoas vão querer montar sociedades com pessoas desconhecidas se elas não confiam em ninguém.

A falta de confiança dificulta também o processo de descentralização das decisões nas empresas. Os executivos resistem muito em delegar as decisões importantes se não confiam nos seus subordinados. Isso afeta bastante a produtividade das empresas brasileiras, por exemplo, pois vários estudos mostram que descentralizar as decisões é necessário para aumentar as inovações e para o crescimento da produtividade.

Finalmente, as relações entre trabalhadores e empresários também é bastante complicada nos países com baixa confiança porque os trabalhadores não confiam nos sindicatos e os sindicatos não confiam nas entidades patronais. Assim, tudo vai parar na Justiça trabalhista.

A falta de confiança ajuda a explicar também a corrupção generalizada que está sendo revelada pela Operação Lava-Jato no Brasil. Nos países em que a confiança é baixa, a regulação tem que ser alta. Como não há confiança de que as regras serão cumpridas, é necessário regular tudo através de leis e contratos extremamente detalhados para todas as transações. Os cartórios para reconhecimento de firma no Brasil são um exemplo típico disso. O problema é que, como sabemos, esse excesso de regras dificulta a vida das pessoas. É aí que surge a figura do despachante, por exemplo. Além disso, esse excesso de regras aumenta muito os benefícios da corrupção para passar na frente da fila.

Como podemos fazer para tornar as pessoas mais confiáveis no Brasil? Infelizmente, o peso da história do nosso país, que vai moldando as percepções de sua população ao longo do tempo e passando de pai para filho, torna a confiança nas pessoas algo muito difícil de ser mudado.

No Brasil, o impacto da Operação Lava-Jato no curto prazo é mostrar que “todos os políticos roubam”, o que deve diminuir ainda mais o nível de confiança das pessoas. Somente se as decisões da Justiça provocarem uma profunda mudança na percepção das pessoas com relação à impunidade é que a qualidade das nossas instituições e valores poderá mudar. Isso deverá levar algum tempo, mas é a única alternativa que temos para mudar o país.

Fonte: “Valor econômico”, 21/07/2017.

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