Carne Trêmula

Diretamente de Trumpland, onde os tremores são frequentes, quase ininterruptos, foi com espanto que vi a exaltação que se apoderou do “debate” sobre a Operação Carne Fraca. De repente, surgiram vários especialistas do agronegócio, da saúde pública, da atuação da Polícia Federal e do Ministério Público a opinar a respeito do mais recente escândalo de corrupção no País. Do pedestal de suas certezas rígidas, acusam a PF, o MPF, a mídia de provocar sensacionalismos desnecessários, defendem frigoríficos sob suspeita, e recusam-se a enxergar o óbvio: tenha sido um ou vinte, vinte ou quatro mil empresas e frigoríficos envolvidos, a PF desvelou um atentado à saúde pública no País.

Atentado esse que deveria ter sido imediatamente abordado como problema sério, antes que fossem citados os números dos fiscais envolvidos, o porcentual do setor de carnes, ou mesmo os dados de exportação da carne brasileira. Acalmar a população deveria preceder a defesa da imagem de um País que consome internamente cerca de 80% da carne produzida. Em vez disso, a Operação Carne Fraca foi transformada em Operação Barata Voa, os destroços esmiuçados pelos tais especialistas que passaram a tratar a questão de forma ideológica.

Os fatos, não os sabemos por completo. Diz a PF que a investigação continua, que há mais a ser revelado. Enquanto isso, grandes países e blocos exportadores como a União Europeia, a China, o Chile, a Suíça resolveram adotar embargo total ou parcial às exportações da carne nacional. Digam o que quiserem nossos governantes e especialistas, o problema, na realidade, é maior do que a carne.

O Brasil está sob intenso escrutínio internacional desde que a corrupção foi desvelada pela Lava Jato como o verdadeiro esporte nacional. Ainda que não seja justo tratar toda a produção de carne brasileira como “de segunda”, o fato é que a corrupção endêmica que se vê no País dá pouco espaço para que o setor seja agora visto no exterior com admiração. Carne corrupta, corrupção encarnada.

O Brasil exporta para o resto do mundo cerca de 20% da carne que produz. Esses 20% tornam o País o maior exportador mundial de carne, onde ocupa fatia de 20% do mercado global. Entre os cinco maiores exportadores de carne do mundo estão, em ordem, o Brasil, a Índia, a Austrália, os Estados Unidos, e a Nova Zelândia. No mundo, nós somos cerca de 30% maiores do que os EUA, que exportam cerca de 15% da carne que produzem. O Brasil, isolado que é, não tem a projeção geopolítica que caberia a um país de seu tamanho. Contudo, se somos anões internacionais em diversas áreas, sempre fomos um gigante na área de segurança alimentar, tema dos mais importantes em mundo marcado pelas tendências de crescimento populacional em áreas em que a segurança alimentar é pouca ou inexistente. Eis, portanto, o grande dilema brasileiro: a corrupção acaba de abalar nosso único meio de projeção como superpotência global.

A crise no setor de carnes provavelmente será superada. O governo, espera-se, tratará de cuidar da saúde pública e de conter qualquer possibilidade de disseminação que prejudique os consumidores brasileiros. Em algum momento, os mercados, por ora fechados, tornarão a se abrir para o Brasil, ainda que o preço da carne exportada sofra baque com as mais recentes revelações. O problema, entretanto, é que o mundo não haverá de esquecer que a corrupção brasileira está por toda parte, inclusive na comida.

Comida financiada pela péssima ideia de promover campeões nacionais, comida corrompida por trocas de favores, propinas, esquemas para dar dinheiro a políticos e partidos políticos. O escândalo da Carne Fraca é a última prova de que o capitalismo de Estado à brasileira envenena, destrói, adoece. As mais recentes vítimas do capitalismo de Estado à brasileira foram a saúde pública, as nascentes aspirações geopolíticas do País, seu engajamento global como superpotência alimentar.

O algoz que muitos, hoje, tratam de querer esconder atrás de números que nada atenuam é a corrupção generalizada, corrupção que já mostrou a todos não ter ideologia ou partido político.

Fonte: ” O Estado de São Paulo”

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