Cartões-postais de nostalgia e ódio

Tudo começou da forma mais inocente possível. Encontrei na CNN uma lista de itens de viagem em extinção e levei para o Facebook. A lista me chamou a atenção porque começa com uma das paixões da minha vida viajante: cartões-postais. Como meu pai os colecionava, sempre que chegava a uma nova cidade tratava de comprar um bem bonito para a sua coleção. Aproveitava e mandava cartões para o resto da família e, muitas vezes, quando viajava com amigos, para eles também, tomando cuidado para que não percebessem. Era uma brincadeira que não custava nada e que fazia muito sucesso quando, dias depois de estarmos de volta, a viagem reaparecia dando um alô atrasado por baixo da porta.

Durante um breve tempo mandei cartões para a minha casa, como registro dos lugares por onde andei. Mas era (e ainda sou) desorganizada demais para guardá-los direito, e me sentia muito cabotina escrevendo para mim mesma, ainda que cada cartão correspondesse a uma folha solta de diário.

Em algum momento, porém, abandonei o hábito de todo. Deixei de mandar cartões até para Mamãe, minha última destinatária. Telefonar ficou barato, mandar fotos pela internet, mais ainda — enfim, tudo conspirou contra os velhos postais. E, assim, eles sumiram da minha vida.

(Vão voltar em breve, porque fiquei sabendo de uma iniciativa chamada Postcrossing, em que pessoas ao redor do mundo mandam postais umas para as outras; ninguém se conhece, e o divertido é a surpresa do remetente e da sua origem. Mas isso são outros quinhentos.)

Outros itens em extinção segundo a CNN: shows de slides, guias de viagem e mapas em papel, cafés com internet, despertadores de bolso, traveler’s checks, álbuns de fotos, primeira classe em aviões, baús de viagem. Devo estar entre as poucas pessoas do mundo que lamentam o fim dos shows de slides, mas como meus amigos sempre foram bons fotógrafos e/ou bons contadores de histórias, tenho muitas saudades das noites que atravessamos vendo as viagens uns dos outros.

Ao contrário da CNN, no entanto, eu ainda não apostaria no fim da primeira classe nos aviões. Em vez disso, mencionaria as antigas passagens, que vinham em folhas cheias de carbono vermelho, grampeadas umas nas outras tantas quantas fossem as cidades visitadas, e que eram consideradas tão importantes que nos eram entregues pelas agências em carteirinhas de couro, onde havia espaço também para o passaporte.

Não aguento mais a praga do politicamente correto, assim como não aguento mais a falta generalizada de educação e de interpretação de textos, sobretudo quando há ironias em jogo

Logo depois de publicar a lista, encontrei a foto do interior de um Boeing 377 Stratocruiser, construído em fins da década de 1940, com imensas poltronas reclináveis, espaço à vontade e passageiros vestidos como se vestiam os passageiros d’antanho, ou seja, no auge da elegância. Procurem por Stratocruiser nas imagens do Google para ver que coisa linda! A lista da CNN e a foto do Boeing 377 eram tão complementares que levei para o FB também a imagem do avião, sem qualquer comentário além de uma legenda de duas palavras, “Era assim”.

Fui até a cozinha, fiz café, troquei umas ideias com os gatos e, quando voltei para o computador, o circo estava armado. O que era para ser uma simples trip nostálgica virou um festival de intolerância e hipocrisia — muito daquilo que, hoje, atende por Politicamente Correto. A ironia mal colocada (e pior compreendida) de uma leitora deu origem às grosserias que estamos acostumados a encontrar quando o assunto é política, religião ou futebol — mas foto de avião antigo?!
Explodi. E escrevi algo mais ou menos assim:

Não aguento mais a praga do politicamente correto, assim como não aguento mais a falta generalizada de educação e de interpretação de textos, sobretudo quando há ironias em jogo.

Odeio postar a foto singela do interior de um antigo avião (que me enche, sim, de nostalgia, até pelo que não vivi, pois eu ainda não viajava nessa época) e ter que me deparar com uma série de comentários absurdos — ou claramente preconceituosos ou falsamente democráticos ou obviamente ofensivos, quando não tudo isso junto ao mesmo tempo.

Odeio a ideia primitiva de que temos todos que achar o máximo os atuais voos desagradáveis, apertados como sardinhas em latas, porque isso significa que mais gente está viajando e blá blá blá blá.

Como dizem no Quirguistão: BULLSHIT!!!

É perfeitamente possível conciliar várias emoções; seres humanos são contrários, ilógicos e confusos, e isso faz muito da sua graça. É perfeitamente possível achar uma maravilha que o mundo esteja ao alcance de cada vez mais gente, e ao mesmo tempo achar uma pena que isso se esteja fazendo através da perda brutal da qualidade dos serviços de viagem.

É perfeitamente possível, ainda, olhar para a foto de uma viagem de avião nos anos 1950 ou para o cartão-postal de um velho transatlântico e pensar “Nossa, como era lindo viajar!” — em vez de, imediatamente, lamentar o destino das massas que não viajavam e começar uma diatribe contra as “elites brancas”. Ato que, por sua vez, puxa o fio contrário de um sem-número de preconceitos abjetos, e assim por diante, até termos o que vem se tornando, cada vez mais, a rotina lamentável dos nossos dias: maus sentimentos em cascata, expostos com extraordinária boçalidade num português horripilante.

Bem disse meu amigo Jorge Pontual: “Saudades. Sou do tempo em que viajar de avião era agradável e os comentários no FB eram bem educados”.

Fonte: O Globo, 28/11/2013

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