Caso do MAM espelha duas morais

Dois universos se chocaram no “Encontro com Fátima Bernardes” da Rede Globo, na última sexta. Os artistas convidados expunham sua indignação com os protestos e tentativa de censura a exposições de arte, em particular à exposição do MAM com um artista nu. Eis que, da plateia, uma senhora -Dona Regina -pede a palavra e se põe contra a presença de crianças na exposição. De um lado, os valores da classe artística e intelectual; do outro, os da classe média.

A reação dos artistas, a começar pelas expressões faciais, foi de incredulidade e desprezo. Para eles, que defendem uma ética de autoexpressão individual irrestrita, qualquer crítica é um ataque.

Dona Regina não é uma militante da direita. Também não é uma religiosa fundamentalista e reacionária (se fosse, nem iria ao programa). É uma senhora normal que reflete valores amplamente partilhados pela sociedade. Ela não fez uma diatribe contra a arte ou uma pregação pela moral e bons costumes. Sua fala não tinha ódio.

Apenas deu voz a uma inquietação sobre o bem-estar da criança.

Uma discussão central que ninguém abordou: há algum dano esperado à criança por ter sido exposta à obra? Aliás: será que a menina filmada tocando a perna do artista sofreu mais com isso do que tendo sua mãe exposta, por seus supostos defensores, ao linchamento das redes sociais? Nada disso foi tocado. Vimos apenas a reação indignada: como alguém ousa questionar o direito de a arte ser totalmente livre para fazer o que quiser? Ainda mais com algo tão antiquado como pudor sexual?

Ocorre que Dona Regina não está sozinha. Toda sociedade de que temos notícia tem algum tipo de regra sobre o comportamento sexual. Padrões mutáveis, que podem ser mais ou menos repressivos e cuja imposição sempre se dá em meio a muita hipocrisia, mas que partem de uma mesma percepção: a de que a sexualidade desenfreada é um instrumento de predação de vulneráveis e de ameaça à ordem social. Para muitos brasileiros, colocar um homem nu em contato físico com uma criança viola esses limites.

É normal que dentro de uma sociedade existam diferentes códigos morais. A vida da classe artística é uma; a da classe média é outra. Cada um traz seus prós e contras. Na medida do possível, criam-se soluções de compromisso para a convivência. As próprias pessoas mudam dependendo do contexto. O Brasil é bom nisso, mas enfrentamos dois obstáculos. O primeiro é o evidente desprezo que nossa elite cultural nutre pelos valores e visão de mundo do resto da população. Ao fazê-lo, cria um fosso que a separa da maioria e que pode colocar em risco sua própria existência.

O segundo é que que agora temos grupos se especializando em atiçar o furor popular como estratégia para crescer politicamente. Pessoas que jamais se interessariam em fiscalizar o MAM são levadas a fazê-lo pelo bombardeio de mentiras sensacionalistas (como a de que houve pedofilia no museu) pensadas para promover o ódio.

O Brasil tem vocação para a tolerância. Aqui, todas as éticas, ideologias e credos se diluem para facilitar o convívio e as relações pessoais. Para que isso continue a ocorrer, é preciso resgatar um mínimo de solidariedade entre as diferentes perspectivas e apontar aqueles discursos que fomentam o ódio, a intolerância e a divisão.

 

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