Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

O caso Volpon

Em primeiro lugar, um aviso: embora não tenha, por motivos óbvios, nenhuma simpatia pela atual diretoria do BC, sempre mantive um relacionamento cordial com Tony Volpon, que hoje ocupa minha antiga posição na instituição e que se absteve de participar da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária, quando a taxa Selic foi elevada de 13,75% para 14,25% ao ano.

O motivo de sua abstenção foram críticas recebidas por, supostamente, ter antecipado seu voto em favor do aumento da Selic em reunião com economistas (em nome da transparência, eu estava entre os presentes). A frase que provocou a reação de senadores foi: “Pessoalmente, vou votar pelo aumento de juros até que a nossa projeção esteja de maneira satisfatória apontando para o centro da meta”.

Muito embora políticos tenham interpretado a afirmação como antecipação do voto do diretor, no encontro propriamente dito ninguém a viu dessa forma. A começar porque não havia dúvida de que o BC seguiria o aumento da taxa de juros (a questão era se seria de 0,25 ou 0,50 ponto percentual ao ano).

No entanto, talvez o mais relevante para explicar a diferente reação de senadores e economistas à declaração seja o entendimento acerca da condução de política monetária no contexto de um regime de metas para a inflação.

Ter uma meta para a inflação não implica apenas explicitar um objetivo numérico; requer também, e principalmente, que o BC aja de forma coerente com a busca daquele alvo.

De fatos, bancos centrais que seguem esse regime costumam se comportar de modo semelhante: aumentam a taxa de juros quando a inflação está acima da meta e a reduzem quando a inflação está abaixo dela.

A política monetária só pode afetar a inflação futura

Embora a regra pareça simples, há questões que a tornam um tanto mais complicada. Como já tive oportunidade de expor aqui, não se trata de olhar a inflação passada (por exemplo, os últimos 12 meses, ou, como defendido por um desavisado, os últimos três meses), mesmo porque não há nada que qualquer BC que não possua uma máquina do tempo possa fazer para alterar a inflação já ocorrida.

A política monetária só pode afetar a inflação futura, ainda mais em razão das defasagens conhecidas entre alterações das taxas de juros e a resposta da inflação, afetada por vários canais distintos (atividade, taxa de câmbio, expectativas etc.). Todavia, esta não é conhecida, entre outros motivos porque, ao menos em tese, o próprio BC deveria estar ativamente agindo para colocá-la na meta.

Em razão disso, BCs costumam lançar mão de um conjunto de modelos econômicos que, dentro de suas limitações, buscam responder a uma pergunta crucial: se adotada a taxa de juros “x”, presumindo tal e qual trajetória para as variáveis relevantes (desempenho fiscal, crescimento mundial etc.), a inflação “y” meses à frente estará acima ou abaixo da meta?

Caso a resposta seja “acima”, elevam-se os juros e vice-versa. Não há economista minimamente versado em política monetária que não entenda isso. Já senadores…

Volpon apenas verbalizou essa regra e é lastimável (embora, infelizmente, nada surpreendente) que o BC tenha se curvado à pressão. Mais lamentável, porém, é a tentativa de (presumidamente em nome de “preservar a independência do BC”) colocar a instituição e seus diretores na berlinda por motivos estritamente políticos.

Fonte: Folha de S. Paulo, 5/8/2015

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