Os mercados começam a se mostrar mais cautelosos depois do forte rally de alta ocorrido ao longo do ano passado. Não tem jeito. Este ano será marcado pela volatilidade, tanto pelo estresse gerado pelo nível de endividamento público dos países da Zona do Euro, como também pelas disputas eleitorais domésticas, com o Brasil já mergulhado nas eleições de outubro.

No cenário doméstico, a economia segue em retomada, abrindo espaço para um aperto monetário na reunião do Copom da próxima semana (dias 27 e 28). O varejo segue aquecido, assim como a indústria, e a confiança dos agentes, sendo maioria no meio empresarial, os que pretendem aumentar seus investimentos neste ano.

Sobre isto, uma boa notícia neste ano veio de uma pesquisa da FIESP, sinalizando esta boa recuperação dos investimentos em 2010. Segundo esta instituição, a indústria brasileira pretende investir R$ 151,9 bilhões neste ano, com um aumento de 28,4% em relação a 2009. Observa-se que esta retomada deverá ser generalizada, envolvendo todos os setores voltados ao mercado interno, contudo com as empresas exportadoras mais penalizadas. Na pesquisa, o total de empresas que pretendem investir passou de 85,1% no ano passado para 93,8% neste ano. Dentre os segmentos em destaque, as empresas de máquinas e equipamentos devem liderar, respondendo com aumento de 26,4%. No total, o volume de investimentos deve chegar a cerca de 18,4% do PIB ao fim deste ano.

Os recursos usados para investimentos, na sua maioria, são originários do capital próprio das empresas, mas haverá crescimento na participação do setor público, neste caso, o BNDES, passando de 12,8% para 17,3%. Além disto, estes investimentos estarão concentrados nas grandes empresas, totalizando 79,1% do total mobilizado.

Parece claro, no entanto, que estes investimentos devem se materializar em função do cenário estável e mais previsível da economia brasileira. Por outro lado, há dúvidas se este volume de investimentos está vindo antes ou a reboque do incremento da demanda. Isto porque esta segue em velocidade.

Em fevereiro, as vendas do varejo surpreenderam mais uma vez. Crescerem 1,6% contra o mês anterior, 12,3% contra o mesmo mês do ano passado, 11,3% no ano e 6,9% no acumulado em 12 meses.

Este bom desempenho se deveu à manutenção do poder de compra e à maior oferta de crédito, além da isenção do IPI. Em função disto, houve aumento de 22% nas vendas de Móveis e Eletrodomésticos,  havendo também antecipação de compras já que esta isenção terminou em março.

Um destaque veio do setor de Hiper e Supermercados, Alimentos e Bebidas, com aumento de 11,5% contra o mesmo mês do ano passado. Lembremos que este item representa 47,8% da taxa global do varejo e acabou beneficiado pela estabilidade dos preços dos alimentos, além da boa oferta de crédito e o bom avanço da renda pessoal. Outro segmento em destaque veio dos Artigos Farmacêuticos e Perfumaria, crescendo 3,9% contra o mês anterior, 15,5% contra o mesmo do ano passado, acumulando 12,1% em 12 meses. Os ganhos de renda e a diversificação dos produtos comercializados contribuíram para este bom desempenho.

Isto nos leva ao debate outra vez sobre o ritmo de crescimento dos investimentos e do consumo das famílias. O segundo cresceu bem mais do que o primeiro no ano passado, 4,1% contra queda de 9,9%, com este recuando de 17% para 16,8% do PIB. Pelo planejamento envolvido, e diante da profunda crise no início do ano passado, com a seca total do crédito, os empresários acabaram engavetando seus projetos, ora cancelando, ora adiando-os.

Com este excesso de consumo diante de uma renda estagnada, a poupança doméstica acabou duramente afetada, recuando a 14,6% do PIB, depois de atingir 18% em 2008.

Estes excessos da demanda doméstica – do governo e das famílias – acabaram evitando um mergulho maior da economia, mas tiveram como corolário uma forte deterioração das contas externas, necessária para financiar esta retomada. O saldo em conta corrente, por exemplo, positivo em US$ 1,55 bilhão em 2007, mergulhou para negativo em US$ 28,19 bilhões em 2008 e US$ 24,33 bilhões no ano passado. Para este ano as projeções já passam de US$ 40 bilhões negativos. Em fevereiro, no acumulado em 12 meses, foi a US$ 28,05 bilhões.

Somado a isto, acendeu uma luz amarela no BACEN, dado o descompasso entre investimentos e consumo. Neste sentido, iniciamos 2010 já com um possível aperto monetário no horizonte.

É certo que este terá início agora na reunião do Copom de abril, só havendo dúvidas sobre sua intensidade. Muitos acreditam em elevações seguidas de 0,5 ponto percentual até perfazer 2,5 pontos percentuais no terceiro trimestre deste ano, totalizando 11,25% ao fim de dezembro. Esta hipótese, no entanto, não passa de especulação. Tudo dependerá de como se comportará a demanda vis-a-vis o comportamento da capacidade produtiva, sendo importante observar o nível de utilização da capacidade instalada, as vendas do comércio e a produção industrial mais voltada para o mercado interno.

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