Roberto DaMatta

Meu artigo sobre o cavalo do Spielberg suscitou mensagens. Todas generosas. Quando recebi o telefonema de um colega, tive a certeza de que havia acertado na mosca! Dois leitores chamaram minha atenção para os cavalos não citados e eu quero usar a lembrança de um deles para reiterar como o ditado “santo de casa não faz milagre” é verdadeiro.

Meu texto sobre o cavalo é uma prova de como é realmente impossível controlar o consciente – esse agente motivador da atividade de escrever – e o seu lado obscuro, o inconsciente (esse hóspede não convidado), indispensável em qualquer escrita. Pois durante o ato de escrever, o inconsciente promove incríveis esquecimentos e faz inusitadas lembranças, deixando ao leitor a complementaridade essencial ao sucesso da empreitada.

De fato, ao falar dos cavalos eu mencionei São Jorge, um “santo a cavalo”, mas deixei de fora – vejam o trabalho do inconsciente – o “cavalo de santo”. Mencionei os cavalos dos nossos automóveis, mas esqueci os que são cavalgados pelos deuses nos nossos “terreiros”. Esses mediadores que, como montaria dos orixás, eventualmente ajudam na nossa cavalhada neste mundo.

O conceito brasileiro de “cavalo de santo” revela a luta que ocorre em todas as sociedades conhecidas entre uma percepção do ser humano como sendo feito de muitas “almas ” e num processo e a visão individualista e moderna que estabelece a consciência de si como uma entidade indivisível e acabada, dada de uma vez por todas sendo – seria preciso lembrar Freud, Lévi-Strauss, Louis Dumont e alguma literatura como Poe, Stevenson, Machado? – no mínimo problemática. Pois como disse na semana passada, por mais que sejamos individualistas, somos todos fabricados pelos outros, de modo que por mais que cavalguemos nos nossos egos, outros egos e relações também cavalgam com e contra nós.

Valores como dignidade, honra, culpa, vergonha, gratidão e amor são indicativos dos laços e dos pesos desses vínculos dentro de nós. Donde os “cavalos de santo”. Essa expressão apresenta um extremo da experiência da subjetividade. Pois não existe nenhum homem por quem os sinos não dobrem e nenhum que não tenha tido os seus projetos individuais dobrados por alguma relação ou afeto.

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Coincidentemente, a coerência como um valor cavalgou conosco nestas últimas semanas. Em relação a Cuba, por exemplo, a presidente Dilma disse com todas as letras que os direitos humanos não têm importância universal. Tais direitos devem ser relativizados em casos como o de Cuba (e, é claro, dos Estados Unidos) porque todos temos “telhados de vidro”. Ou seja, em algum momento somos cavalgados por coisas maiores (ou menores) do que nós. Por isso, escolher e desejar introduzem a incerteza em todo pensamento que tenta ser absolutamente fiel a si mesmo. O governo Dilma criou uma imponente Comissão da Verdade, mas os vínculos que a esquerda brasileira tem com Cuba e a sua personalização na figura de Fidel Castro (vejam a força desse nome!) facultam escapar de valores cruciais da vida democrática. Algo que nas cavalgadas corresponde ao peso que cada ideologia, fé e moralidade coloca no lombo do cavalo, fazendo-o empacar ou mudar de rumo.

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Assisti, deslumbrado, ao espetáculo Tim Maia. Um musical que faz mais do que trazer à tona um formidável talento musical, pois o drama de Nelson Motta ressuscita Tim Maia e, por meio da música, transforma em mito e ritual a “vida real” do artista que o próprio Nelsinho biografou no livro Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia (Objetiva, 2007). Com isso, o espetáculo põe no palco a complexa cavalgada entre a força de um talento vulcânico e o seu gerenciamento; a onipotência do sucesso e a sua capacidade de devastar os seus cavaleiros; o deixar que tudo possa acontecer conosco e os limites que cada qual se vê obrigado a se impor, sob pena de acelerar o próprio fim, embora o fim – eis o que Tim Maia descobriu – seja inevitável. Graças ao bom gosto e à lucidez de Nelsinho Motta, todos se emocionam com essa biografia musicada reveladora de uma alma sensível aprisionada num corpo que ia se avolumando na medida em que sucessos e fracassos permeavam sua vida. É muito raro assistir a um casamento tão benfeito entre vida, época, mito e música.

Nesta semana em que testemunhamos a grande cavalgada cósmico-legal dos ministros do STF que, para o bem de todos, deram um passo adiante no sentido de reiterar que numa democracia ninguém deve escapar da igualdade perante a lei, chegou a sexta-feira. E nessa véspera da ilegalidade dos sábados imortais do Vinicius de Moraes eu, a todo pulmão, cantei com o Tim Maia e graças ao Nelson Motta, uma das minhas fantasias favoritas: “O que eu quero? Sossego!”

Fonte: O Estado de S. Paulo, 08/02/2012

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