Ceará e a escola do século 21

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Costumo dizer que a educação brasileira é como um espadachim que precisa esgrimir com os dois braços: um deles para resolver problemas ainda não solucionados do século 20, como o analfabetismo; outro para implementar a educação do século 21. Sobre este último desafio, só conseguiremos alcançar com a oferta da educação integral em nosso país, e que vai muito além do tempo integral. É fundamental que sejamos capazes de oferecer às nossas crianças e jovens o desenvolvimento de quatro importantes pilares durante seu percurso formativo: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a conhecer.

Para colocá-los em prática, a escola deverá ser capaz de desenvolver nos estudantes as chamadas competências para a vida, como colaboração, criatividade, pensamento crítico e persistência, entre diversas outras. Isso significa uma nova maneira de trabalhar o currículo, a formação de professores e o protagonismo dos alunos. Vários estudos mostram que, quando essas habilidades são desenvolvidas de forma intencional no currículo, grandes avanços ocorrem na aprendizagem, no clima escolar e no sucesso futuro do estudante. Não é à toa que a terceira versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em análise no Conselho Nacional da Educação, já trata dessas habilidades como direitos de aprendizagem dos estudantes.

O Ceará, que já vem inspirando o Brasil com seu bem-sucedido modelo de alfabetização de crianças na idade certa, sai mais uma vez à frente. Juntou cerca de 400 convidados, entre professores, gestores, pesquisadores e secretários da educação para debater a escola do século 21, por meio do Seminário Internacional Competências para a Vida: Onde estamos e aonde queremos chegar?. O encontro, que termina nesta quarta-feira (24), em Fortaleza, é realizado por meio de parceria entre Secretaria Estadual da Educação, Instituto Ayrton Senna, Instituto Aliança e Banco Interamericano de Desenvolvimento. É uma grande oportunidade para que o Ceará possa discutir os caminhos para a implementação da educação integral em sua rede de ensino, considerando seus mais diversos formatos de escola.

Nessa perspectiva, trago aqui alguns princípios discutidos no encontro, necessários para a promoção desta educação integral que falamos:

Potencial e escolhas
Todas as pessoas, sem exceção, têm potencial e o direito de desenvolvê-lo. Nesse sentido, as pessoas precisam de oportunidades e de preparação para fazer escolhas.

Oportunidade
A educação é a oportunidade estruturante para desenvolver integralmente o potencial humano, transformando-o em competências para a vida. A educação, por si mesma, não promove todas as condições para o desenvolvimento humano, mas sem ela não existe desenvolvimento sustentável.

Corresponsabilidade
O direito à educação deve ser assegurado com o envolvimento de todos, numa ética de corresponsabilidade entre o primeiro, o segundo e o terceiro setores, além de famílias e cidadãos mobilizados de forma coletiva e solidária, em consonância com o Artigo 205 da Constituição.

Duplo desafio
A educação necessária para o século 21 é aquela que enfrenta simultaneamente as dívidas do passado – que ainda hoje reprovam, excluem e atrasam os estudantes – e as exigências contemporâneas que pedem um novo patamar de competências para a vida, o convívio e o trabalho.

Protagonismo
Promover o protagonismo docente e estudantil é decisivo para que se vejam e sejam vistos como parte da solução e não do problema. Melhorar a qualidade do sistema de ensino, da escola e das aulas requer um novo olhar para a formação de gestores, educadores e estudantes.

Autonomia
A educação integral se refere à dimensão qualitativa da educação e não apenas à quantidade do tempo na escola. O objetivo maior da educação integral é a formação para a autonomia, entendida como o empoderamento dos estudantes para fazer escolhas fundamentadas em seus projetos de vida.

Competências para a vida
A formação para autonomia se faz por meio do desenvolvimento de competências que combinem aspectos cognitivos e socioemocionais, possibilitando aos estudantes se capacitarem para o autoconhecimento, a colaboração, a criatividade, a resolução de problemas, o pensamento crítico, a abertura para o novo e a responsabilidade no alcance de seus objetivos.

É assim que vejo a educação do futuro. E só por meio dessa educação, plena, de qualidade e compatível com os desafios do século 21 é que conseguiremos desenvolver plenamente nossos estudantes, ampliando suas oportunidades de futuro e cumprindo nosso projeto de desenvolvimento enquanto nação.

Fonte: “Isto é”, 24 de maio de 2017.

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