Cenário pós-crise

Ao fim do ano é importante que tracemos um novo cenário para a economia brasileira, sem esquecer, é claro, a mundial, depois de superada a fase mais aguda da crise de liquidez e de crédito, iniciada no ano passado.

Sobre o cenário doméstico, como podemos visualizar na tabela acima, o que se tem é o “melhor dos mundos”, com a atividade econômica em célere retomada, o desemprego recuando, assim como a renda avançando, estimulada também pelo reajuste do salário mínimo, estabilidade inflacionária e as políticas sociais.

A política monetária se mantém cautelosa, com a inflação sob controle mesmo com todas as pressões em contrário, os mercados de ativos mostram valorização, refletindo o crescente ingresso de recursos externos, o que vem valorizando nossa moeda, de certa forma servindo para derrubar a inflação.

Isto, no entanto, acaba nos colocando diante de alguns dilemas. Convive-se com o real apreciado, de um lado estimulando as importações e segurando os preços mas, do outro, reduzindo a competitividade das exportações. Com isto, o desempenho da balança comercial vem sendo afetado, embora a forte demanda chinesa por commodities esteja sustentando as exportações.

Outro ponto “fora da curva” diz respeito à gestão fiscal recente, com os últimos indicadores do setor público mostrando contínua deterioração. Sobre este tema, há de se fazer uma ressalva, no elogio às boas políticas anticíclicas adotadas, tantos monetárias como fiscais, tanto na injeção de liquidez e redução de juro para manter o sistema de crédito fluindo, como nas isenções fiscais para estimular a economia real. Neste caso, o IPI acabou reduzido, ou mesmo zerado, para estimular vários segmentos, como o automobilístico, com destaque para carros “ponto zero” e flex, a linha branca, com estímulo na produção de vários eletrodomésticos, a construção civil, o setor de bens de capital e, mais recentemente, a indústria moveleira.

Com isto, muitos destes segmentos vêm operando à plena carga, o que traz o fantasma da falta de produtos nas prateleiras. Este movimento, no entanto, ainda é bem localizado, já que o Nível de Utilização da Capacidade Instalada, em torno de 83%, ainda é considerado confortável para a expansão da indústria sem maiores pressões inflacionárias.

Falando nisto, a indústria nacional, um dos segmentos mais afetados pela seca do crédito na virada do ano passado, lentamente vem se recuperando neste segundo semestre. Em outubro, a expansão foi de 2,2% contra setembro, com destaque para os segmentos de bens duráveis e de capital, cada um crescendo 5,9%. Contra outubro do ano passado houve uma suave melhoria, com a indústria recuando apenas 3,2%. É preciso estar atento ao detalhe de que o desempenho só não vem sendo melhor em função do aumento das importações de insumos e manufaturados, reflexo da apreciação cambial e da demanda mais aquecida, o que vem afetando um pouco a produção doméstica.

Sobre o desempenho do varejo, as projeções indicam uma boa expansão das vendas neste final de ano, com o Natal já considerado como um dos melhores em muitos anos. A contribuir para isto, a injeção de recursos gerados pela primeira parcela do 13º salário, despejando cerca de 2,8% do PIB na economia neste final de ano. Neste cenário, boa parte deverá ser usada para o consumo, mas não devemos esquecer também do pagamento de dívidas. Somado a isto, é possível que tenhamos um Natal com muitos produtos importados, com destaque para as bebidas e Panetones.

No gráfico a seguir, observa-se, pelos dados das vendas do varejo, segundo a PMC do IBGE, uma expansão do varejo em torno de 5%, sustentada pelas vendas de hiper, supermercados, alimentos e bebidas, com grande peso na apuração do índice, e na venda de bens duráveis, como os eletrodomésticos da “linha branca” e os automóveis, não devendo ser descartado. Este movimento, no entanto, não vem sendo acompanhado pelo mergulho da produção industrial neste ano, devendo fechar em queda próxima a 8%.

Sobre as expectativas da Lopes Filho & Associados, as projeções indicam uma expansão do PIB próxima a 4% no quarto trimestre deste ano, contra o mesmo do ano anterior, mantendo-se neste ritmo no início do ano próximo, o que vem forçando os mercados futuros a trabalharem com taxas de juros mais altas, em torno de 10% a 10,5% para o período citado. Como a demanda responde mais rapidamente aos estímulos de crédito, fiscais e de renda, a velocidade desta retomada pode acabar se tornando um aviso para uma postura mais cautelosa da autoridade monetária no ano que vem. Até o Ministério da Fazenda, ao elaborar seu Orçamento, sancionou estas expectativas, ao projetar uma taxa básica de juros em 10,25% ao fim de 2010.
Esta e outras indagações entrariam, portanto, no rol de preocupações para 2010. Poderíamos, também, citar as eleições de outubro, de novo a leniente gestão fiscal, a deterioração das contas externas, o desgaste dos escândalos políticos, entre outros.

No caso da gestão fiscal, o superávit primário recuou de 1,17% para 1% do PIB em 12 meses, nos dados de outubro, reflexo destas isenções fiscais, assim como a preocupante evolução das despesas correntes, muito centradas em despesas de custeio e de pessoal.

Na verdade, é crítica a gestão fiscal do governo nos últimos anos, já que boa parte das despesas foi direcionada para pessoal, pouco sobrando para os investimentos públicos, com especial atenção para infraestrutura. De um superávit consolidado em torno de 4,3% do PIB, caímos neste ano para algo em torno de 1% em 12 meses.

Mesmo com estas preocupações, a economia brasileira caminha célere para crescer mais de 4,5% em 2010, depois de crescer algo em torno de 0,2% a 0,6% neste ano. O estímulo maior, neste caso, virá do mercado interno, com o consumo das famílias como determinante, sem esquecer os gastos públicos e o retorno, mesmo que tímido, dos investimentos. É esta variável, inclusive, que determinará se teremos apenas um surto de crescimento ou um ciclo mais longo. Caso os investimentos evoluam para algo em torno de 22% a 25% do PIB será possível manter um crescimento consistente e durável da economia, caso contrário, a partir de 2011 os problemas com gargalos devem começar a aparecer, assim como o fantasma da inflação da demanda.

Apesar disto, aparentemente, o cenário doméstico, neste momento, é róseo. Os problemas começam a aparecer, no entanto, quando olhamos para o exterior.

É fato que as economias dos países ricos já começam a mostrar sinais concretos de saída da recessão, com os indicadores de crescimento positivos, mas o desemprego segue alto, assim como o grau de endividamento destes países, considerado proibitivo.

Nos EUA, o desemprego passa de 10% ao fim deste ano, mesmo patamar observado nos países da Zona do Euro. Sendo assim, como estimular o consumo se o receio maior se encontra na manutenção da empregabilidade e no pagamento dos compromissos assumidos?

Além disto, no Japão a dívida pública já passa dos 200% do PIB, nos EUA de 100%, assim como na Itália, em torno de 125%. Além disto, com as políticas monetárias frouxas, a liquidez se mantém abundante, o que abre espaço para operações arriscadas em busca de maiores rentabilidades.

Surge daí o temor sobre o timming ideal para o desmonte das políticas de estímulo de crédito e fiscais, já que muito da retomada dos países ricos só foi possível em função destas políticas e o desemprego ainda alto coloca dúvidas sobre a sustentabilidade desta trajetória. Este processo terá que ser gradual, respondendo ao desempenho das economias envolvidas.

Outra preocupação diz respeito ao receio de formação de bolhas nos mercados emergentes, dado que os mercados de ativos vêm num desempenho altista, um pouco descolado do curso dos fundamentos domésticos. Isto pode ser visto pelo ritmo de crescimento da China neste ano e no próximo, entre 8% e 10%.

Concluindo, a retomada da economia brasileira é uma realidade, já que será possível em função do aquecimento da demanda doméstica, mas não devemos perder de vista o desempenho dos países ricos, já que se algo der muito errado por lá, os canais de financiamento e o fluxo de comércio internacional acabarão duramente afetados, o que se refletirá numa redefinição do cenário para 2010. Outro ponto a ser abordado diz respeito ao enigma chinês, em ritmo exuberante de crescimento, mas com um mercado doméstico ainda em processo de amadurecimento.

Esta é uma indagação a ser feita: dá para a China crescer neste patamar, com grande volume de investimentos em infraestrutura, enorme volume de crédito ofertado, para fazer frente a um mercado consumidor ainda em formação?

Estejamos, portanto, otimistas com o nosso cenário doméstico, mas atentos ao que acontece lá fora.

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