Ricardo Galuppo

Era inevitável que a conferência Rio+20 acabasse se transformando em palco de manifestações feitas apenas para fazer o barulho de sempre num momento em que há milhares de ouvidos atentos ao que se passa no Brasil.

O encontro nem bem começou, mas a temporada de abusos cometidos em nome do direito de manifestação já está nas ruas.

Na tarde do último sábado, um grupo de indígenas e outros “manifestantes” invadiu um escritório do consórcio que constrói a usina de Belo Monte, no Pará. Quebrou computadores, rasgou documentos e armou o maior quiproquó (em mais um desses casos de desrespeito ao trabalho e à propriedade alheia cometidos em nome do “ativismo social”).

Ontem, no Rio de Janeiro, outro grupo de indígenas, que tinha entre seus integrantes o cacique Danã, de Itaporanga (município que fica no interior de São Paulo, na região de Avaré, a menos de 300 quilômetros da capital do estado), deixou a Cúpula dos Povos em pinturas de combate, cocar na cabeça, arcos, flechas e bordunas para marchar pelas ruas do Rio de Janeiro até chegar à Rua República do Chile, nº 100.

E, sem conseguir explicar direito a razão da escolha desse alvo improvável, soltou gritos de guerra diante da sede do BNDES.

Andar armado pelas ruas de uma cidade é crime e, por mais folclóricas que pareçam as flechas dos povos da floresta (inclusive os das matas de Itaporanga), elas podem matar alguém.

O encontro nem bem começou, mas a temporada de abusos cometidos em nome do direito de manifestação já está nas ruas

Mas os índios podem carregar o que bem entender nas ruas de uma cidade grande como o Rio de Janeiro. Se alguém se sentir incomodado e reclamar, logo surge uma ONG qualquer disposta a jurar que os silvícolas são inofensivos e incapazes de ferir a quem quer que seja. E que toda reclamação contra eles é motivada por preconceito.

Nenhum brasileiro em sã consciência tem o direito de ignorar os abusos que, no passado, foram cometidos contra os povos que habitavam o território antes da chegada das caravelas de Cabral.

Houve, sim, situações inomináveis, que merecem o repúdio da sociedade – assim como merece repúdio qualquer tipo de preconceito de natureza racial. Mas é preciso ser um pouco razoável.

Está cada vez mais difícil, no Brasil, pertencer à classe média urbana que se esforça para comprar a casa própria e pagar as prestações do carro zero.

Enquanto ela só tem deveres, todas as minorias têm o direito de protestar e, quando fazem isso, são capazes de gestos que invariavelmente afrontam a lei – como aconteceu com os indígenas que saíram pelas ruas do Rio de Janeiro num cortejo que muita gente pode até ter confundido com um desfile dos Caciques de Ramos (a única “tribo” carioca da gema de que se tem notícia).

A Rio+20 é uma conferência importante, e as dificuldades encontradas pelos diplomatas que discutem a questão da sustentabilidade para chegar à redação do documento que será assinado pelos chefes de Estado já eram esperadas.

Mas, se o país não abrir o olho, a conferência servirá apenas para mostrar a imagem (falsa, com certeza) de que o Brasil é um país que nega a seu povo os direitos mais elementares.

Fonte: Brasil Econômico, 19/06/2012

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