Cesare Battisti e a erradicação da fome

“Na Itália, seu país natal, ele é um assassino condenado, declarado terrorista e fugitivo internacional responsável por quatro assassinatos na década de 70 quando atuava pelo grupo Proletari Armati per il Comunismo. No Brasil é refugiado político, livre para andar tranquilo pelas ruas. E sim, nós estamos falando da mesma pessoa”.

Foram estas as palavras que a rede de notícias árabe Al Jazeera usou para descrever a decisão brasileira de libertar Cesare Battisti e garantir seu asilo político em nosso território. Entre as possíveis justificativas levantadas – sem dar certeza do que realmente acontecera, é claro – estavam a soberania da justiça brasileira, um novo “gigante econômico e diplomático” que nada teria a perder dizendo não à Itália e o jogo de compadres que durante a década de 70 estavam em campos semelhantes. O jornalista Gabriel Elizondo chegou a ensaiar um provável diálogo onde ministros e congressistas do Partido dos Trabalhadores teriam falado ao pé do ouvido de Lula: “Isso poderia ter acontecido com um de nós…”

O fato concreto é que a decisão foi tomada e ainda não existem alternativas para fazer com que as autoridades recuem. Os resultados da medida são incertos, apesar das ameaças italianas.

Os líderes do partido regionalista Lega Nord per l’Indipendenza della Padania, por exemplo, afirmaram ao jornal “VicenzaPiù que “o Brasil deveria se envergonhar desta infâmia” e que a Itália deveria suspender relações diplomáticas com o Brasil enquanto a União Européia suspenderia seus acordos de cooperação econômica enquanto Battisti não for extraditado.

Em resposta às pressões – inclusa a fúria de Berlusconi -, o governo italiano promoveu duas ameaças: apresentar denúncia no Corte Internacional de Justiça da ONU e boicotar a Copa do Mundo de 2014, não enviando sua seleção e tentando cooptar seus parceiros para que façam o mesmo.

Ambas as possibilidades são danosas: em primeiro lugar por que o Brasil tenta desesperadamente a indicação – por meio de eleição – para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU – o que não combina com um processo internacional deste nível. Em segundo por que, como bem sabemos por aqui, a organização da Copa do Mundo já tem problemas internos demais para se aventurar à uma exposição negativa internacional. Ainda mais no exato período em que o Governo Brasileiro faz de tudo para deixar licitações de lado nas contratações para as obras de infraestrutura…

De fato, por enquanto, apenas o enfraquecimento da candidatura de José Graciano da Silva para diretor-geral da Food and Agriculture Organization marcada para acontecer entre os dias 25 de junho e 2 de julho exatamente em… Roma, capital da Itália. O presidente Lula, principal responsável pela candidatura e pela decisão da não extradição, foi o primeiro a correr: afirmou, como reproduziu o Jornal do Brasil, que não comparecerá ao evento, realizando no máximo uma videoconferência sobre o que seria a temática principal do lobby para Graciano: a erradicação da fome.

 

 

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