Dias atrás, em sua coluna, Ancelmo Góis chamou a atenção de seus leitores para as preocupações do “mercado” com a perspectiva de uma futura eleição presidencial de Lula. Difícil falar pelo mercado, mas algumas décadas de convivência com seus atores me permitem avançar algumas considerações.

Com base nas recentes pesquisas realizadas pela Data-Folha e congêneres, fica a impressão de que são fortes as chances de sucesso de uma candidatura Lula. Por que, então, os preços das ações e do dólar refletem tranquilidade se Lula é um diabo personificado na avaliação dos executivos financeiros?

Na verdade, é preciso levar em conta quatro barreiras fortes às pretensões do ex-presidente. Em primeiro lugar, há a lei da “ficha-suja”, que impede candidaturas de réus condenados em segundo grau. Lula deverá receber condenações em primeira instância, proximamente, e o Tribunal de Porto Alegre, ou o de Brasília, poderá confirma-las a tempo de derrubar suas pretensões.

Entretanto, a morosidade dos tribunais pode fazer com que esta barreira seja ultrapassada e, aí, passaríamos para a segunda etapa: a da homologação da candidatura pelo PT. Hoje a escolha de Lula pelo Partido pode parecer evidente, mas não podemos esquecer que, na altura da confirmação, Lula já deverá estar condenado em alguns dos processos em curso e estarão mais que evidenciadas as suas culpas. O próprio Partido poderá desistir da ideia, em atenção a argumentos de ordem moral.

Passada esta etapa, apesar das dificuldades, Lula teria que concorrer e ganhar a eleição, o que não seria fácil dada a sua altíssima taxa de rejeição, que só fará aumentar com o esclarecimento dos fatos e o somatório de condenações.

Finalmente, mesmo que eleito, Lula precisaria tomar posse. Ora, o Supremo, por maioria de seus membros, já se manifestou no sentido de que réus em processo criminal não podem estar na linha sucessória da Presidência da República. É certo que nosso Direito tem sempre leis e artigos para todos os gostos, mas não passa pela cabeça de ninguém, com um mínimo de coerência lógica, que um réu não possa estar na linha sucessória, mas possa estar entronizado na Presidência da República.

Ainda sobre a posse, não podemos desconsiderar a possibilidade de uma intervenção militar, caso se chegue a esta já improvável etapa. Por tudo o que já sabemos sobre os crimes de corrupção perpetrados contra a sociedade brasileira, a candidatura de Lula é vista como um escárnio, uma afronta à população ordeira e honesta. Militares não cogitam de governar o país e a ideia de ditadura tem o repúdio da população. Mas uma intervenção saneadora e garantidora da ordem, de curta duração, é possível e está nas cogitações do “mercado”.

Por tudo isso, são praticamente nulas as chances do Lula. Se o mercado dorme hoje intranquilo, é por conta de outros desdobramentos de nossa crise conjuntural.

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