No jantar do Mercosul no Rio, um Kirchner gozador perguntou a Lula se ele não era mais de esquerda. Não se sabe o que Lula respondeu. Lula tem sido educado nestes encontros, calando-se inclusive à frente de atos malcriados. Mas neste caso, talvez não tenha respondido por prudência. A resposta se tornou muito complicada. Mas vamos ver se com a ajuda de alguns cientistas sociais, poderemos ajudar o Lula.

A pergunta direta feita ao Lula já foi feita para importantes cientistas sociais, economistas e políticos. Ninguém conseguiu responder a contento. A pesquisa teve que ser refeita de forma indireta, com o uso de vinte perguntas, plotadas em um mapa plano com duas escalas, em torno de uma indagação das mais antigas: “Já que precisamos de governo, qual a quantidade de governo que estamos dispostos a aceitar?”

O mundo definitivamente não é plano para as opções políticas. Somente um sistema de pesquisa que usasse escalas multi-dimensionais daria conta das nossas diferenças, mas teremos que nos contentar com um simples mapa plano. Como quase todos participantes estão mortos, as respostas foram psicografadas.

O mapa possui duas escalas. Na primeira, mede-se a presença do governo na vida pessoal. Num extremo (zero), a presença total do governo. Para se ir e vir, precisa-se de um passaporte e visto do governo. No outro extremo (cem), tudo é permitido, inclusive o uso de drogas e do corpo. Sem lenços nem documentos. Na segunda escala, mede-se a presença do governo na vida econômica. Num extremo (zero), o governo tem posse de tudo e tudo distribui com critério próprio, anotando tudo em uma caderneta. No outro extremo (cem), comércio total e desobstruído e ausência de impostos. No pólo sul do mapa, o totalitarismo. No pólo norte, formas de auto-governo.

As respostas estão dispostas neste mapa político, que tem dois eixos: o Norte/Sul (Libertarianismo/Totalitarismo) e Leste/Oeste (Direita/Esquerda).

No mapa, entre os paralelos 30° e 70° de fundo mais cinzento, situam-se pessoas que procuram sínteses impossíveis ou tem interesses irreconciliáveis. No extremo Oeste, estão os que querem total liberdade pessoal com pequena liberdade econômica. No extremo Leste estão os que querem grande liberdade econômica mas lutam por muitas restrições à vida pessoal. Querem que o governo protejam suas famílias das drogas, da pornografia e dos riscos da vida. Gostam de estados de tendência teocrática.

Hayek usava uma expressão para tais pessoas – the muddle-headed– expressão intraduzível e com vários significados. Algumas pessoas são inconsistentes, mas geralmente oportunistas, como os nacionalistas, Perón e Getúlio entre outros. Alguns são simplesmente lunáticos, como Comte e Rousseau. Outros, otimistas inteligentes, que acham que a inteligência pode ser mestra do nosso destino. (Condorcet, Descartes, Aristóteles). Também existem os pessimistas inteligentes (Bentham, Galbraith, Schumpeter, Weber, Hamilton), céticos, práticos (protecionistas, por exemplo) e talvez cínicos. Estes inteligentes eram talvez frívolos no uso da sua inteligência. E também existe o grupo dos realmente confusos, como conservadores puros, verdes puros, verdes melancia e olhado como um todo, o PT. E alguns pós-keynesianos podem ser chamados de excêntricos, pois entenderam que tinham em mãos a máquina da fortuna.

Mais observação do mapa mostra três grupos de viajantes políticos durante os últimos cinqüenta anos. O primeiro são os social-democratas. Lá pelos anos 60 se convenceram que os comunistas eram um bando de assassinos e começaram uma longa jornada na direção da sociedade aberta. Depois do desaparecimento da União Soviética, se propuseram ser os liberais de bom coração.

O segundo grupo é o do PT. Uma frente ampla com propostas da ortodoxia socialista até pouco tempo, fez uma muito rápida aproximação à social-democracia após a vitória nas urnas. Ainda existem dúvidas sobre as convicções da conversão mas é evidente que notaram que “idealismo é uma coisa linda mas o custo se torna proibitivo quando se aproxima da realidade”

O terceiro grupo de viajantes precisa de uma introdução. Enrique Guersi fez pesquisa recente sobre o que é neoliberalismo. Chegou à conclusão que não é nenhum pseudo liberalismo, nenhuma nova escola liberal, nenhum liberalismo despojado de anti-clericalismo e nenhuma estratégia de marketing. Neoliberalismo é um mito, uma figura de retórica de origem recente, não usada pelos liberais da velha guarda mas existente na imaginação dos que usam o termo, usualmente inimigos da liberdade concentrados na América Latina, África e alguns países asiáticos. Mas se não existe neoliberalismo, o que é um neoliberal? O mapa dá uma pista. Devem ser recentes ex-comunistas e ex-socialistas que se tornaram liberais.

Voltemos à pergunta feita ao Lula e qual poderia ser a resposta. Observando Lula no eixo Norte/Sul e mesmo usando o eixo Leste/Oeste, Lula está sempre à esquerda, mas alto na escala de liberdades pessoais. Lula poderia responder à Kirchner: “Eu continuo de esquerda, mas a democrática”. A resposta seria boa, mas talvez ofensiva. Kirchner tem tido achaques bastante anti-democráticos. Apesar que os aloprados andaram nos assustando bastante na esfera pessoal, com tentativas de controle da cultura, do jornalismo e de aparelhamento político para ter no governo “um PT por 50 anos”, excelente forma de definir partido único. E bem recentemente um ministro fez discurso estarrecedor sobre seu entendimento do papel do jornalismo. Na esfera econômica, as intervenções e ações dirigistas do governo são constantes, nem nos assustam mais. Vejam o caso do novo PAC. Ainda acreditam que o governo é o motor de um país como o Brasil, num atroz e atrasado ataque de positivismo econômico.

Se fosse o Chaves que fizesse a pergunta, Lula teria uma única resposta possível: “Quem não é de esquerda é você”. O mapa mostra que Chaves marcha batido para o fascismo. Porém, como Chaves não é um homem de visões, mas de alucinações, ele poderá ir para qualquer lado. É só o dinheiro ficar curto que ele irá lembrar-se de Luis XIV: “Cada vez que ajudei alguém, arranjei um ingrato e trezentos inimigos”

Não sei se deu para ajudar o Lula. Mas ele poderia também optar por uma resposta evasiva, uma de carioca gozador do tipo: “Pergunta outra vez e devagar, que eu sou surfista”

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