Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
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‘China 2.0’ abre novas oportunidades para a América Latina

O fator mais importante a determinar o futuro das relações China-América Latina é a ascensão do que devemos chamar de “China 2.0”.

Esta, que já alcançou o posto de maior economia do mundo em termos da riqueza medida pelo critério do poder de paridade de compra, resulta de mudanças no “DNA” do modelo produtivo na China, mas também da irradiação de sua presença global para além da pujança de suas exportações.

Se estivéssemos falando de uma equação matemática que pudesse expressar o que esse fenômeno representa, a fórmula seria: China 2.0 = “metamorfose” da economia política  + “grande extroversão” chinesa.

Ao examinarmos a natureza evolutiva da China, tendemos a nos concentrar principalmente na “metamorfose” e menos na “extroversão”, mas ambas são de suma importância para a economia mundial e em especial para a América Latina.

Os elementos constitutivos da metamorfose são bem conhecidos. Eles compõem uma série de quatro transformações.

A primeira: ao contrário do que foi a tendência das últimas quatro décadas, uma menor ênfase no papel da China como nação-comerciante, o que implica maior foco no mercado interno em substituição à prioridade tradicionalmente dada às exportações.

A segunda: incentivo ao consumo e portanto fatias menores ocupadas no PIB chinês por poupança e investimento.

A terceira: progressiva agregação de valor ao produto chinês, sobre o qual hoje já incidem os efeitos de o país destinar 2% do PIB a pesquisa, desenvolvimento e inovação, percentual que rapidamente se aproxima do que fazem nessa área de ponta os países ricos.

A quarta: evolução de um sistema bancário e de mercado de capitais essencialmente rudimentar para um sistema financeiro sofisticado e complexo, com destaque para a crescente internacionalização da moeda chinesa.

Já os pormenores da projeção global chinesa – é dizer, sua “grande extroversão” – têm recebido menos atenção.

A irradiação da influência chinesa produz-se a partir de uma dinâmica que cada vez mais caracteriza a China como uma “nação-rede”.

Os chineses até há pouco adquiriam via importações grande parte das peças e insumos daquilo que mais tarde seria “montado” na China.

Isto já não é mais tão evidente, pois os chineses estão comprando crescentes redes de fornecedores. Quando estes se localizam no exterior, ainda que suas vendas à matriz sejam operacionalmente “importações”, em realidade nada mais é que do que um comércio “intra-empresa”.

Esse fenômeno é percebido fortemente hoje na vizinhança geoeconômica da China, de que é exemplo o Vietnã.

Muitos empresários que hoje chegam à China em busca de oportunidades de outsourcing e pedem para visitar as fábricas do potencial fornecedor, com frequência ouvem: “nossa fábrica não está mais aqui, mudou-se para o Vietnã”.

Em outras regiões, países que oferecem tanto acesso privilegiado a commodites como baixos custos de produção também vêm recebendo uma enxurrada de investimentos chineses. É bem o caso do continente africano, que, em igual medida tem na China seu grande parceiro na promoção da infraestrutura.

Pequim olha com interesse especial aqueles países de menor desenvolvimento relativo que estão se associando a novas arquiteturas de comércio e investimento como a Parceria Transpacífico. Nesses, de que são exemplo México e Peru, buscam posicionar suas empresas para, em transações com grande mercados do bloco, como EUA e Japão, serem tratados como “locais”.

E, claro, muito do investimento chinês no exterior está rumando para os EUA, uma vez que os custos de se produzir em território norte-americano ou chinês estão ficando cada vez menos distantes.

Essa grande extroversão se complementa com novos bancos de fomento, como aquele formado pelos Brics, e por um maior perfil chinês no financiamento do desenvolvimento e mesmo provedor de capital de emergência.

Todas essas novas características chinesas podem representar grave ameaça quanto imensa oportunidade para a América Latina no que diz respeito ao tema da “reindustrialização”. Há muitos cenários em que os objetivos latino-americanos de aumentar sua produção de manufaturas e a necessidade da China promover novos pólos industriais no exterior estão alinhados.

Os chineses adorariam ter um canal único de diálogo com a América Latina. Como inexiste tal veículo de interlocução para canalizar projetos de investimento que possam envolver vários países da região, a cooperação será moldada principalmente em nível bilateral.

Uma vez que é bastante evidente o que a China traz para a mesa, a chave para uma cooperação mutuamente benéfica será cada país latino-americano identificar muito claramente onde reside seu interesse nacional vis-à-vis China.

Diante desse quadro, será que o Brasil tem uma estratégia para lidar com a China 2.0?

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 23 de março de 2016.

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