Patrícia Carlos de Andrade & Eduardo Viola O Globo, 30 de junho de 2005 Observamos chineses e indianos se movimentando no mundo. O que querem? Seria parceria conosco no mercado internacional, para contrapor o peso de Estados Unidos e Europa, na nova geografia prometida pelo governo Lula? O chanceler Amorim dedica esforços para que vôos entre Cairo e Brasília não mais tenham de passar por Washington ou Paris. Ele ainda não percebeu: o que deveria preocupar o trabalhador e, principalmente, o jovem brasileiro que se prepara para entrar no mercado de trabalho formal — na indústria ou nos serviços — é a tendência à queda de vôos entre São Paulo e Shangai e Bangalore, enquanto aumentam os vôos entre essas duas cidades e o resto do mundo. Nossos responsáveis pela política externa, com visão ideologizada, ranço terceiro-mundista e antiamericano, e com eco na mídia, enfatizam o caráter de parceiros estratégicos da China e da Índia. Mas comércio internacional é parceria e rivalidade. E parceria é a face menor do papel desses países para o Brasil: se avançam, compram mais produtos primários brasileiros. A face mais profunda é a rivalidade: China e Índia são séria ameaça para indústrias e serviços brasileiros. Nos mercados de produtos de altíssima tecnologia, ninguém compete com EUA, Europa e Japão, por causa da escassez de capital, diante da qual a oferta de mão-de-obra não faz diferença. Mas em produtos de baixa, média e, em menor medida, alta tecnologia, a China se tornou e a Índia vai se tornar grandes manufaturas planetárias. Ambas têm vantagens comparativas em todos os produtos, porque têm mão-de-obra mais barata nos setores em que querem atuar — desde uma massa camponesa golpeando as portas das cidades para trabalhar por doze horas diárias a U$ 100 por mês, até centenas de milhares de engenheiros formados anualmente. Só as universidades americanas mantêm mais de 100 mil estudantes chineses e indianos em seus cursos. Enquanto isso, no Brasil, o IBGE reporta queda de participação de empresas de alta tecnologia na geração de riqueza do setor industrial. Na mídia internacional, fala-se muito do livro “The Worldis Flat”, de Thomas Friedman, que mostra como cresce o apetite de indianos e chineses pelo domínio e o uso de alta tecnologia, em particular de informação e comunicação, com disposição a trabalhar não as 35 horas semanais dos franceses, mas 35 horas por dia! Isso afeta vastos setores da economia americana, que têm exportado milhares de empregos para a Ásia. O que dirá da economia brasileira! Para além das vantagens comparativas, o estágio atual do comércio internacional foi mais longe: Wall Street exporta para Bangalore departamentos de pesquisas financeiras. Não seria de se espantar que algum grande banco nacional já estivesse pensando em terceirizar serviços financeiros para lá, onde relatórios financeiros podem ser escritos à noite, tão bons quanto os dos jovens brilhantes da PUC-Rio ou da USP, que ganham menos que os americanos e mais do que os indianos. A visão doutrinária e voluntarista dos responsáveis por nossa política externa não serve ao interesse nacional. Ao contrário, ela o mina, porque supõe parceiro quem é rival. O Brasil é o único país da América Latina que tem economia com equilíbrio dos setores primário, industrial e de serviços. China e Índia não competem em produtos primários, mas o fazem em toda a escala do secundário, inclusive alta tecnologia; a Índia, também em serviços. Já sentimos o golpe em têxteis, calçados, brinquedos, eletrônicos, seja dentro das regras ou as violando, como fazem as máfias chinesas de contrabando, falsificação de propriedade industrial e roubo da propriedade intelectual. Com 60% dos trabalhadores no setor informal, resultado de uma política trabalhista obsoleta, o Brasil se torna importante disseminador da propriedade industrial falsificada, que alimenta a rede que vai da produção na China à distribuição mundial por sua diáspora, chegando aos camelôs brasileiros. Nessa falsificação, reprimida na Europa, no Japão e nos EUA, o Brasil tem convergência porque tolera o que os chineses promovem. Só que nesse mercado, como nos demais, os asiáticos são mais eficientes. Não percebemos que a Alca, ao nos associar diretamente ao dinamismo econômico e à previsibilidade jurídica americanos, valorizaria a especificidade de nossa abundância de recursos naturais e de mão-de-obra mais barata que a americana, brindou-nos com a última oportunidade para que resistíssemos à massa infindável de camponeses indianos e chineses que trabalham por U$ 100 mensais e os jovens engenheiros, por US$ 300 — por bem menos que nós. Mas a ideologia antiocidental e terceiro-mundista nos custa muito caro. Só nos restará chorar se, no futuro, os EUA fecharem um acordo de livre-comércio com a China ou com a Índia.

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2 comments

  1. ronaldo

    Parece que, pelo ponto de vista deste instituto que só nos resta atrelarmos nosso destino a super potência do norte.
    O único problema é que nos setores em que somos competivos os EUA são protecionistas.

  2. Cristiana Castro

    Estados … o que???????? Potência de onde????? Tá falando daquele paisão comunista da Ásia, né? A mega potência mundial, que os neoliberais adoram “esquecer” que é COMUNISTA.