China no caminho crítico

Confesso que não fui até a Muralha da China para conferir in loco. Mas os indicadores macroeconômicos disponíveis prenunciam que a economia chinesa se aproxima rapidamente de um ponto de saturação: investimentos estatais financiados por forte endividamento e baixa capacidade reprodutiva. A eficiência do capital está recuando de modo acentuado. As novas inversões simplesmente não remuneram os recursos aí vertidos.

 

Até quando? Difícil avaliar. Os chineses são regidos por uma economia de comando, apenas perifericamente determinada por decisões vindas do mercado. Os brasileiros conhecemos bem esse processo, pois o vivenciamos na “economia em marcha forçada”, entre os anos 70 e 80. A poupança brasileira era, na época, muito mais fraca do que a chinesa, o que poderá determinar sobrevida adicional ao atual milagre econômico da China. Mas o enigma persiste: vai durar para sempre?

 

Há analistas cuja leitura que fazem hoje do estreitamento das opções chinesas os leva a previsões sombrias. Algumas evidências dão margem a esse grau de pessimismo. A expansão chinesa é sustentada por crédito explosivo de origem estatal, sem consideração sobre o risco de recuperação do principal emprestado, sobretudo a governos locais através de “veículos especiais de financiamento” chamados, em inglês, “Local Government Financing Vehicles” (LGFVs). As traquitanas financeiras chinesas em nada ficam devendo às Obrigações Colateralizadas de Dívida (CDOs, na sigla original) e outras invenções que alavancaram o mercado financeiro americano, a ponto de quebrar os principais bancos e corretoras do país.

 

Os LGFVs são biscoitos chineses com mensagens-surpresa. Uma vez aberta a caixa-preta dos emprestadores oficiais desse crédito, o susto poderá ser bem desagradável. A montanha de recursos que financia infraestruturas ociosas terá de ser repactuada para dentro das contas do passivo soberano chinês, ou seja, o governo comunista. Alguns especialistas calculam que a dívida oficial do país crescerá 30% por conta dos LGFVs impagáveis. E é bom saber que tais créditos representaram quase 80% de todo o aumento da massa creditícia pós-crise. Desde 2009, o estoque de crédito na China deu mais um salto mortal sem rede, expandindo em mais de US$ 1 trilhão (pense nesse número…). O montante do crédito chinês já ultrapassa largamente a renda nacional.

 

“Mais uma razão para descartar a iminência de uma crise”, dirão os otimistas, já que, numa economia de comando, regida pelo signo do sucesso prometido pelo partido único, recessões ou retrocessos seriam sintomas de fragilidade do regime e, portanto, inadmissíveis no contexto de uma ditadura política.

 

O Brasil é sócio do contrassenso chinês. O preço das commodities mais expressivas na balança comercial brasileira guarda relação direta com a marcha forçada dos asiáticos.

 

Mas a economia é, afinal, regulada por estímulos tanto quanto por limites, alguns até bastante elásticos, que fatalmente produzem inesperado efeito bumerangue quando testados além da conta. Não seria excessivo nem exagerado afirmar que Lula se despede do cargo como um verdadeiro mandarim chinês. Pois, assim como a primeira gestão lulista coincidiu com o início da alta monumental dos preços das commodities -a mais intensa do pós- -Guerra-, o ano de 2011 poderá nos trazer o adeus à renda adicional das exportações agrícolas e minerais.

 

A sorte grande de Lula ainda fará muitos órfãos.

 

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