Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

A China não tem pressa

Em 2008, quando do estouro da bolha bancária-imobiliária nos EUA, foi necessário um estudo a respeito de quais outras situações similares poderiam estar em andamento ao redor do mundo.

O primeiro foco a ser examinado, por uma questão de destaque no crescimento econômico e pujança comercial, claro, foi a China. E em relação à China, penso ser um equívoco classificá-la como emergente. Trata-se de um país indiferente. Não emergente. A China tem, no mínimo, 3 mil anos antes de Cristo em experiência com agrupamentos, aglomerados de pessoas, cidades, províncias e assim por diante, e tudo que pode dar certo ou errado com tais assuntos.

Ainda antes de organizações de cunho religioso, a China começou a tomar decisões governamentais pensadas em séculos, e, depois do contato com o ocidente, as decisões começaram a ser tomadas em termos de milênio.

Isso pode ser observado no momento em que, depois de gozar de gerações seguidas de inventores – e na verdade estamos falando do exercício da ciência no seu sentido mais puro e, portanto, eficiente – que aplicavam o pensamento à observação somada à criatividade com sucesso. Colhidos os frutos e comercializados com o hemisfério oposto, eles se prepararam, contando, é claro, com revoltas populares, para se fechar ao mundo, ou melhor, reger a economia e a sociedade a fim de preparar o país para os próximos séculos.

E o que se pode observar? Os chineses passaram cerca de 70 anos vivendo quase que da própria produção, exportando muito, na maior parte mercadorias e produtos de baixa qualidade por um preço ínfimo, acumulando capital estrangeiro, sem distribuir lucro, apenas cuidando do básico para a manutenção do povo e da produção.

Se eu vejo a China como um país indiferente à economia global, eu vejo o Brasil como divergente-decadente

Com isso, diante do volume do contingente humano excessivo, houve sim abuso dos direitos humanos em escalas abomináveis, principalmente com mulheres e crianças em situação de trabalho escravo e toda a degradação moral e social que tal quadro apresenta. O que escrevo no momento não tem qualquer intenção de aliviar, pesar ou julgar esse aspecto, ainda que ele exista e eu seja veementemente contra esses abusos.

Como uma potência nuclear hermética ao controle externo, e podendo sobreviver do consumo nacional, a China esperou calmamente o reconhecimento do mundo a respeito da capacidade de consumo de sua população e, acima de tudo, o quanto esse mundo exterior ávido por lucros estaria interessado em ser parceiro na abertura do mercado chinês e seu bilhão de consumidores.

Quem pode dizer que eles estavam errados em termos práticos? Nem mesmo os crimes de escravidão e abuso infantil são lembrados ou mencionados hoje. Acordos foram feitos a respeito do compromisso chinês em não contar mais com mão de obra comprometida. Mas ninguém se interessa em conferir realmente. Todos querem que a China cresça, que cresça para sempre, porque todos crescem com ela.

O que impressiona é que os professores de História e Filosofia que prestam assessoria às maiores empresas do mundo estão avisando faz tempo: a história é cíclica, e os chineses têm condições de se fechar novamente para o mundo além de suas imensas fronteiras, adotando um regime de controle absoluto, lindando inclusive com um tempo de revoltas internas sem sucumbir. E o resto do mundo? Não é problema deles. Basta manter algumas alianças com seus parceiros regulares ao redor que ninguém vai se meter a apertar o botão. A China sempre foi e é indiferente ao mundo. E ela pode ser.

Não é só a mensagem dos historiólogos e dos filósofos que vem sendo esquecida. Parece que o mundo privado, e especialmente o mundo estatal não percebeu que os produtos “made in China” não são mais brinquedos que quebram em uma semana, ou o tecido que se desfaz na máquina de lavar. Faz mais de 30 anos que adolescentes chineses migram apenas para se educar nos grandes centros de ciência e tecnologia em todo o globo terrestre, edificando ou dirigindo empresas fora da China ou ainda voltando para a terra pátria a fim de retransmitir a tecnologia adquirida, educar o povo nativo e produzir mais e melhor do que o transmissor dessa tecnologia.

Ao longo de 5 mil anos, a China aprendeu, no mínimo, a não ter pressa. Já o seu maior opositor, os EUA, cultuaram desde a fundação do país a pressa, passando a depender dela– na produção, na venda, no consumo, em tudo. Por mais que tenham criado um sistema econômico, social e legal que ampare boa parte dessa cultura, estão sofrendo para fazer frente ao opositor, pois nunca pensaram em termos milenares, e, assim, não podem viver exclusivamente do consumo interno baixando um regime repressor para aguentar as revoltas populares por algum tempo.

Novamente, não se trata de julgar o que existe de pró ou contra em cada cultura. Afinal, trata-se de observar qual poderá se manter viva com o menor abalo possível.

Quando se observa tal batalha entre gigantes fica mais evidente ao que fomos reduzidos nas últimas duas décadas. O Brasil não está perto nem de um sistema de consumo básico e bem regulado em termos de educação e civilidade no trato da empresa e do consumidor, pois o Estado sobretaxa e quebra a iniciativa privada, além de usurpar os tributos com a desenfreada corrupção, e nem tampouco pode se valer do consumo interno como subsistente, baixando também decretos contra as revoltas da população diante do estelionato estatal.

Enquanto isso, o Brasil conta com a solidariedade dos governantes da Bolívia e da Venezuela, onde as filas por comida estão sendo agredidas pelas forças do governo.

Se eu vejo a China como um país indiferente à economia global, eu vejo o Brasil como divergente-decadente. Ou a população reage, ou diante do desemprego a situação análoga à escravidão passará a ser aceitável novamente.

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