Sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
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China, turbulência econômica e parada militar

Estou na China numa viagem de três semanas repleta de debates sobre BRICS, mercados emergentes e especialmente os enormes desafios que se apresentam a Brasil e China. Antes de chegar aqui, meus colegas ocidentais pediram-me para compartilhar as impressões de como era estar no “coração da crise econômica”.

No contexto da propalada turbulência da Bolsa de Xangai, o tombo vertiginoso dos índices acionários, que a própria mídia chinesa chama de “Segunda-Feira Negra” (o último 24 de agosto), queriam saber qual o clima no “olho do furacão” – como os locais estavam lidando com a “grande queda da China”. Brincando com as palavras “fall” (queda) e “wall” (muralha), foi assim que a “Economist” retratou em sua mais recente capa as agruras da economia chinesa.

Os altos escalões no governo e empresas chinesas desconversam sobre a gravidade dos problemas que afetam tanto o setor financeiro quanto a economia real. Exibem um excesso de autoconfiança quanto a habilidade de lidar com a crise e abundância de ferramentas normativas e de liquidez. Argumentam que a imprensa ocidental está usando o mesmo “template” para interpretar a queda do Lemann Brothers em 2008, a crise de dívidas europeias em 2011 e a presente instabilidade na China.

E mesmo a mídia chinesa está pagando o pato. Cerca de 200 jornalistas foram punidos em seus veículos por disseminar “rumores infundados” sobre a saúde da economia. Um deles, o repórter Wang Xialou, da conhecida revista econômica chinesa “Caijing”, foi preso e “confessou” numa audiência transmitida ao vivo pela CCTV ter “fabricado e espalhado boatos”.

O aperto da intimidação à cobertura jornalística da turbulência e a maneira “dirigista” com que autoridades do mercado de capitais impõe restrições a livre movimento de compra e venda pouco contribuem para dirimir dúvidas e receios.

Se, por um lado, cada vez mais os chineses adotam a retórica de mercados mais avançados e suas noções de “compliance”, “relações com investidores” e respeito a “direitos de acionistas minoritários”, por outro continuam a fazer sentir a mão pesada do regime.

Para os chineses, no entanto, o grande tema do momento não é a sua suposta crise econômica. Nove em cada dez pessoas não têm outro assunto a não ser as celebrações dos 70 anos do fim das hostilidades da Segunda Guerra Mundial na China.

A China claramente não se contenta mais com proeminência apenas no campo econômico-comercial. Deseja ser reconhecida – e temida – por seu poder duro

Os chineses não podiam ser mais diretos. Chamam o 3 de Setembro de “Dia da Vitória da Guerra Antijaponesa do Povo Chinês”, como ressaltou o próprio embaixador em Brasília, Li Jinzhang, em artigo publicado ontem nesta “Folha de S. Paulo”.

O presidente Xi Jinping atribui enorme importância a essa data. Planeja para tanto a mais portentosa parada militar já vista na Praça da Paz Celestial.

A mais imediata interpretação dessa demonstração de força e nacionalismo reforça a ideia de que a China atravessa uma dupla metamorfose.

Numa dimensão, sacoleja com um cenário internacional mais adverso a suas exportações e um público interno abraçado ao modelo de poupança e investimento elevados e baixo consumo. E essa dinâmica é complexificada por uma economia que, para continuar a evoluir, tem de tornar-se mais sofisticada e portanto menos “dirigível”.

Noutra, ressentimentos históricos que China e vizinhos nutrem mutuamente, ou desconfianças que Pequim inspira em Washington ou Nova Delhi – são agora exacerbados pelo crescente status chinês como superpotência do século 21. A China claramente não se contenta mais com proeminência apenas no campo econômico-comercial. Deseja ser reconhecida – e temida – por seu poder duro.

No limite, as incertezas quanto ao futuro da economia chinesa são café pequeno comparadas ao potencial desestabilizador de uma ascensão atabalhoada da China como protagonista político-militar.

Fonte: Folha de S. Paulo, 2/9/2015

2 comentários

  1. jesse vargas vieira

    democracia é inconciliável com a corrução- democracia e fazer com que as crianças aprendam na escola o espirito analitico e crtico sobre tudo- enfim um patriotismo com forte dose de nacionalismo— por fim de3 vez na corrupçao estatal que vive o brasil.

  2. Não há dúvida de que precisamos de policiais mais bem preparados e bem equipados nesse país. Abração.

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