Chiníndia e produtividade, um solilóquio para Dilma

Imagina uma conversa com a nossa presidente, restrita a números e análises do que está acontecendo na economia. Diria à presidente Dilma que, mesmo longe de estar completa, a arrumação da casa do ponto de vista fiscal permitiu redução expressiva da razão entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) e transformação da dívida pública de origem externa em crédito. Liberou-se a economia e, com o aumento do crédito e da massa salarial, somados aos sempre crescentes gastos públicos com transferências a pessoas, acabamos criando um forte motor de geração de demanda pelo lado interno.

Lembraria, para tranquilidade da nossa presidente, que os produtores brasileiros estão bem preparados para responder ao forte crescimento da demanda externa por produtos intensivos em recursos naturais, em que somos campeões. Essa demanda tem sido puxada fortemente por China e Índia, carentes desses recursos e que, para nossa sorte, são os países onde o PIB mais cresce atualmente. Em contraste com a Europa, o Brasil tem administrado bem sua dívida pública e se vê, a princípio, diante de uma clara e firme perspectiva de crescimento para sua economia.

Rememoraria o neologismo Belíndia (Bélgica mais Índia), cunhado por Edmar Bacha, para destacar nossa extrema desigualdade social. Num gesto intelectualmente arriscado, permito-me sugerir Chiníndia, que visa a chamar a atenção para quem puxa a carruagem do nosso crescimento. E destacaria à presidente que, dadas as necessidades de alimentação e de matérias-primas industriais desse novo gigante – que cresce a taxas absurdas e cujo PIB conjunto já é maior do que o dos Estados Unidos -, temos hoje um caminho seguro para obter divisas, algo que até bem pouco era nossa maior agonia.

Presidente, em termos de agonia, o que pega hoje é a precaríssima infraestrutura de transportes, que muito perturba toda a economia. Por exemplo: custa mais caro trazer grãos do Centro-Oeste para os precários portos do Sul do que transportá-los dali para a Ásia. Assim, se não atacarmos esse problema do jeito certo, não haverá como transformar as citadas oportunidades em ganhos concretos para os brasileiros.

Como a senhora sabe, mesmo com transportes caóticos, temos uma forte vantagem comparativa: conseguimos aumentar significativamente a receita de exportações nos últimos anos e atrair uma verdadeira inundação de capitais externos, principalmente pelas oportunidades em commodities e no setor de serviços, no qual o competidor externo é mais fraco ou inexiste.

Em termos de agonia, o que pega hoje é a precaríssima infraestrutura de transportes, que muito perturba toda a economia

Presidente, a indústria de transformação, alvo de tanta preocupação de sua parte, é o patinho feio nessa história – a não ser nos segmentos totalmente protegidos da competição externa. É na indústria que se dá a avassaladora competição da Chiníndia, e onde os incentivos para investir são menores. Num país, como o Brasil, voltado para o consumo, o sucesso acima referido e as prioridades da Chiníndia têm como subproduto mais visível a tendência à apreciação cambial sistemática e tudo o que isso implica, especialmente o barateamento ainda maior dos produtos industriais importados, bom para quem compra, ruim para quem produz internamente.

Outro subproduto do nosso modelo de expansão do consumo é a escassez de recursos públicos para investimento.

Em suma, presidente, alto consumo implica forte demanda em cima de todos os setores da economia, mas não garante que esta seja atendida por produção interna em todos eles. Na indústria, é sempre mais barato trazer da Chiníndia, de quem temos de também comprar alguma coisa. Basta lembrar que eles poupam muito e buscam virar a maior potência industrial do mundo.

O governo de Vossa Excelência tem mantido o modelo de crescimento dos gastos correntes – que prejudica a poupança e o investimento públicos – e decidiu há pouco, além de medidas pontuais de proteção à indústria, depreciar artificialmente a taxa de câmbio, que, hoje, oscila em torno de R$ 2. Esse último aspecto implica travar a entrada de poupança externa adicional e o aumento da taxa de investimento, que serviram até bem pouco para aumentar o crescimento do PIB, algo que o governo Lula vinha abraçando desde 2003.

Nesse contexto, para a economia brasileira de fato bombar nos próximos anos, a saída é jogar toda a ênfase dos investimentos no setor de infraestrutura, especialmente via concessões privadas. O setor público não tem recursos e desaprendeu a planejar e investir. Depois, esse tipo de investimento aumenta a produtividade global do País, não apenas em commodities agrícolas e minerais, como nos demais setores, especialmente na indústria, que é quem tem pago a conta da importante sinergia Brasil-Chiníndia. Só assim o País cresce mais o seu PIB sem precisar aumentar muito a taxa de investimento.

Mas, presidente Dilma, tão importante quanto anunciar mais concessões é fazê-las com remuneração atrativa para o investidor privado sério. Caso contrário, os serviços nem crescem nem melhoram. E os ganhos de produtividade e do crescimento do PIB simplesmente não ocorrem.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 13/08/2012

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