Cinzas de Iguala

Demetrio M.

O México, como o Brasil, não é para principiantes. A tragédia de Iguala, no estado de Guerrero, está coberta por uma espessa neblina de desinformação. Perfurando-a, descortina-se um panorama de crises empilhadas e uma encruzilhada crucial na política internacional hemisférica. Na escala local, o episódio envolve três atores: a prefeitura, uma máfia do narcotráfico e os 43 estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa, assassinados com requintes de crueldade. O prefeito da cidade ordenou a detenção policial das vítimas, que foram entregues aos criminosos da gangue Guerreros Unidos e “desapareceram”, incinerados e lançados a um rio. Barbárie.

Depois de Iguala, o México não pode mais esconder sua “guerra suja” atrás dos tapumes coloridos de uma relativa prosperidade econômica

A associação entre autoridades locais e chefes do tráfico, e a consequente infiltração de policiais municipais pelo crime organizado, é um fenômeno dos últimos 15 anos. Mais antigo é o fenômeno da radicalização de estudantes de pedagogia no México meridional, região mais pobre do país. As escolas normais, criadas pelo Estado para integrar os filhos de indígenas na estrutura do funcionalismo, como professores de escolas públicas, converteram-se em incubadoras de movimentos sociais e focos de difusão do extremismo político. O massacre de 26 de setembro foi um ato destinado a aterrorizar os militantes que incomodam o poder local e, de algum modo, parecem ter se interposto no caminho dos negócios do narcotráfico.

Na escala nacional, o episódio evidencia a disfuncionalidade do aparato de segurança do Estado mexicano, posto à prova pela “guerra contra o tráfico”. A mobilização das Forças Armadas na repressão direta às gangues, iniciada no governo de Felipe Calderón (2006-2012), não surtiu os efeitos previstos, mas provocou uma escalada de violência pontuada por denúncias de torturas sistemáticas e pela descoberta de inúmeras sepulturas clandestinas.

As responsabilidades diretas do governo federal não devem ser minimizadas, mas o núcleo do desastre deriva de responsabilidades indiretas. No México, as polícias municipais, controladas pelos prefeitos, tornaram-se ferramentas de alianças entre autoridades locais e o crime organizado. Iguala marca o ápice de uma trajetória de infiltração desses aparelhos pelos narcotraficantes. A cidade é um reduto do PRD, partido de centro-esquerda de oposição ao governo federal. O estado de Guerrero é governado pelo mesmo PRD desde 2005. As manifestações contra o PRI, partido do presidente Enrique Peña Nieto, inscrevem-se no tabuleiro da manipulação oportunista do massacre. Peña Nieto cortou a espiral de violências descontroladas. Mesmo assim, não tem o direito de circundar a crise desatada em setembro. A punição dos assassinos e de seus sócios políticos não encerrará o assunto. Depois de Iguala, o México não pode mais esconder sua “guerra suja” atrás dos tapumes coloridos de uma relativa prosperidade econômica.

Na escala hemisférica, o episódio revela a falência estratégica da “guerra às drogas”. O Plano Colômbia, de 1998, transferiu as rotas do tráfico do Caribe para o Istmo Centro-Americano, corroendo as instituições estatais e os aparelhos policiais na América Central e no México. De lá para cá, a teia do narcotráfico ampliou-se pela incorporação definitiva do Brasil, na dupla condição de grande mercado consumidor (como os EUA) e, cada vez mais, de importante rota de passagem (como o México). Contudo, desgraçadamente, ainda nem começou um debate interamericano sobre as alternativas ao fracasso da abordagem militar.

Fonte: Folha de S.Paulo, 15/11/2014.

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