Câncer institucional

O oportunismo político de estimular a economia antes das eleições tem sempre custos inflacionários e recessivos logo depois. A inflação sobe e a recessão se instala. É o momento econômico que vivemos. Após anos de inflação “represada”, enfrentaremos meses de inflação “corretiva”. Disparam preços antes mantidos artificialmente baixos, como a taxa de câmbio e os custos de energia elétrica e combustíveis. Esses reajustes deflagram ondas inflacionárias de repasses de custos que se difundem por toda a economia. A crise política torna tudo mais difícil. Se o Congresso não aprovar o ajuste fiscal proposto por Levy, mais uma vez os juros do Banco Central serão o único instrumento para tentar frear a aceleração das expectativas inflacionárias.

A economia brasileira caiu na armadilha social-democrata do baixo crescimento. Somos vítimas do fechamento cognitivo de uma social-democracia hegemônica ante o desafio econômico da estagflação e o desafio político da corrupção. A hipertrofia e o aparelhamento do Estado deturpam valores morais e práticas políticas. Fabricam escândalos, desmoralizam partidos e derrubam nossa taxa de crescimento. “Um requisito básico para escapar do baixo desempenho econômico é o claro entendimento de que se origina de instituições deficientes, que por sua vez resultam de crenças errôneas. A estrutura institucional existente é um poderoso obstáculo às mudanças, pois reagem em defesa de interesses adquiridos”, adverte o Prêmio Nobel em Economia Douglass North, em “Compreendendo o processo de mudanças econômicas” (2005).

A economia brasileira caiu na armadilha social-democrata do baixo crescimento

A escalada dos escândalos de corrupção sistêmica revela o labirinto em que se meteu nossa classe política. É como se tivéssemos dois governos, um que trabalha em busca de uma governabilidade orgânica em fóruns políticos apropriados e outro suspeito de práticas corruptas em um “mercado paralelo” das empresas estatais. Uma governabilidade “por dentro” dos orçamentos públicos, à base da valorização de partidos, governadores, prefeitos e suas bancadas parlamentares, muito diferente da governabilidade “por fora”, sem transparência e à base da roubalheira para a compra oportunista de apoio parlamentar. Ante a omissão do Executivo e do Legislativo, cabe ao Judiciário extirpar esse câncer institucional.

Crenças errôneas e instituições deficientes agravam o desafio econômico da estagflação e o desafio político da corrupção.

Fonte: O Globo, 9/3/2015

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