Basta fazer umas poucas contas para se verificar que o governo da Grécia não tem dinheiro para pagar juros e prestações da dívida que vencem neste ano (cerca de US$ 60 bilhões) e que terá de fazer um duríssimo programa de aumento de impostos e corte de gastos (e, pois, de salários e aposentadorias) para sanear suas finanças.

Fica evidente que, mesmo conseguindo um financiamento especial da União Europeia e do FMI, o governo grego precisará negociar com os credores, para solicitar descontos, prazos mais longos etc. Você toparia emprestar dinheiro novo para esse devedor? E se topasse, pediria juros maiores ou menores? É simples, não é? E outra: o governo grego não caiu nesse buraco assim distraidamente, mas mergulhou nele com vontade, gastando mais do arrecadava, tomando empréstimos para financiar os tombos e escondendo o valor exato de suas contas.

Nada disso, denunciam os governantes: a Grécia é vítima de um ataque especulativo da banca internacional.

Mesma coisa que se diz em Portugal, na Espanha, na Itália e em tantos outros países que enfrentam dificuldades para rolar suas dívidas no mercado internacional.

Há vantagens nessas teses. Primeiro, tira a responsabilidade maior dos governantes (“fizemos a coisa certa, mas somos vítimas da especulação”) e, segundo, empurra a busca de solução para os outros, no caso, a União Europeia e o FMI. Como dizem os governantes gregos: ou nos dão o dinheiro ou será o caos na Europa; não podemos fazer nada.

Na verdade, podem, mas não querem pagar o preço político de ajustar as contas. Ou seja, depois de terem distribuído bondades com o dinheiro alheio, querem mais dinheiro alheio para continuar vivendo à grande.

Essa é a história simples, o resto é embromação.

Incompetência Outra história: o presidente Lula encontra sempre outros culpados para o atraso dos investimentos públicos, como o Tribunal de Contas da União, os órgãos de licenciamento ambiental e a oposição, que bloqueia projetos no Congresso.

Mas considerem estes dados levantados pela repórter Samantha Maia, do jornal “Valor Econômico”, edição de ontem: há nada menos que R$ 7,6 bilhões sobrando nos cofres da Caixa Econômica Federal porque não se consegue colocar de pé um programa de investimentos em saneamento, lançado pelo governo federal em novembro de 2008.

Logo que assumiu seu primeiro governo, o presidente Lula denunciou com estardalhaço que sua administração havia encontrado dinheiro sobrando na Caixa e programas de saneamento sem recursos. Culpou o neoliberalismo, coisa dessa gente que não gosta de gasto público.

Pois o dinheiro continua sobrando, mesmo com gente que adora aumentar o gasto público. É simples: incompetência, incapacidade administrativa de bolar os programas e colocá-los em funcionamento.

Já anunciar, com palanque e tudo, é mais fácil. Depois, quando a coisa não anda, encontram-se alguns culpados e algumas conspirações, exatamente fazem os governantes gregos, portugueses e espanhóis.

A coca imperialista Quando assumiu o governo da Bolívia, o presidente Evo Morales denunciou o método americano (imperialista) de combate às drogas, suspendeu a colaboração com a polícia especializada dos EUA (DEA) e anunciou que trataria do assunto de uma forma progressista. Consistia no seguinte: toda liberdade à plantação de coca para os legítimos cocaleros, aqueles que produzem para o consumo local de chás e folhas de mascar, e rigorosa vigilância sobre os ilegais, que vendem para o tráfico.

Consequência: aumentou fortemente a produção para o tráfico e a exportação da pasta de coca para o Brasil.

Óbvio, não era? Se não há um controle rigoroso de toda a produção e distribuição, se não há uma polícia internacional vigiando, é claro que os cocaleros vão vender sua colheita para os traficantes, pela simples e boa razão de que eles compram mais volume e pagam mais.

Ou seja, não há cocaína bolivariana e cocaína imperialista. Dá o mesmo barato, o mesmo dinheiro, a mesma corrupção. Se com uma polícia competente como a DEA americana já é difícil controlar, imaginem sem.

Isso é coisa simples, que só a ideologia equivocada pode transformar num caso político, com imensos prejuízos para todos, exceto os plantadores.

Fonte: Jornal “O Globo” – 29/04/2010

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