Combatendo o ‘novo normal’

No rescaldo da grande crise financeira de 2008, economistas usaram letras para simbolizar qual seria a trajetória de recuperação da economia global.

Para os otimistas, o movimento se daria em “V”. Após acentuada queda, expansão de mesma forma exuberante que caracterizou parte dos anos 90 e o ciclo dourado das commodities até a hecatombe do Lehman Brothers. Passado o dilúvio, “business as usual”.

Para outros, mais realistas, o formato seria o “W”. À Grande Recessão de 2008 seguiriam espasmos eufóricos sucedidos por novas contrações — como se levou a crer com a pronunciada crise das dívidas soberanas europeias em 2011, de que a Grécia foi paradigma.

Latino-americanos, com recente exceção dos países da Aliança do Pacífico, pouco fizeram pela modernização institucional de sua economia política

Para os que torcem pelo malogro da economia de mercado, 2008 e sua posteridade marcavam um “Y”. Finanças globais abraçariam “setores reais” da economia num mergulho vertiginoso — o fim ao capitalismo como o conhecemos. Estaria aberto o caminho para projetos de economia e sociedade radicalmente alternativos, o que não se via desde o esfacelamento do socialismo real na década de 80.

Superada essa ou aquela ilusão, o olhar prevalecente que se lança agora sobre os últimos seis anos — perspectiva dominante a ponto de converter-se em cliché — é a de que a economia global encontra-se num “novo normal”.

Sua forma é a de um “L”: derrocada da expansão do PIB mundial até o ponto de estabilização num patamar medíocre. De agora em diante, os países devem resignar-se a operar numa “banda estreita” de crescimento que não permite grandes alterações de status econômico.

Países ricos, sem brilhantismo, continuarão com PIB per capita superior a US$ 35 mil. Emergentes verão congelada sua esperança de alcançar níveis de renda dos mais avançados. Nesse imobilismo da contribuição relativa que cada país oferece ao produto mundial residiria o “novo normal”.

Essa narrativa, que dominou a reunião anual do FMI e do Banco Mundial mês passado, é um baita convite à inércia. Oferece aos governantes a desculpa de que “há pouco a fazer”.

O fato é que a maioria dos países da OCDE — EUA e Reino Unido à parte –, continuam a organizar-se de modo a que o welfare state leve à competitividade e inovação, e não o contrário.

Latino-americanos, com recente exceção dos países da Aliança do Pacífico, pouco fizeram pela modernização institucional de sua economia política. A “anormal” arremetida chinesa nos últimos 15 anos ajudou a mascarar a falta de estratégia para um período “normal” de menor apetite global por commodities.

Interessante atentar para o debate que hoje se trava na China sobre o combate ao “novo normal”. Os chineses enxergam que o risco de uma fase de menor crescimento global não é vitimizar-se na “armadilha da renda média”.

Perigo maior é atolar no que chamam de “armadilha latino-americana”. Entendem pela expressão o combinado de populismo, urbanização caótica e, sobretudo, “voos de galinha” no crescimento econômico resultantes da ausência de reformas estruturais. Não parece familiar?

Fonte: Folha de S.Paulo, 21/11/2014.

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