Comércio, a zona escura

Rolf Kuntz

Há uma zona escura no cenário otimista recém-divulgado pelo Ministério da Fazenda. A economia crescerá 4,5%, o investimento chegará a 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB), o capital estrangeiro continuará a fluir, o superávit primário de R$ 139,7 bilhões será alcançado e a inflação avançará para o centro da meta. Mas como ficarão as exportações e as importações? Nenhuma projeção aparece na 14.ª edição do boletim Economia Brasileira em Perspectiva – uma notável omissão no meio de tantas previsões até audaciosas. É uma confissão de insegurança, diante de um quadro externo cheio de riscos, mas há algo mais que isso. Todas as projeções divulgadas até agora, a começar pela do Banco Central (BC), apontam para um resultado medíocre das exportações e para uma redução substancial do superávit na conta de mercadorias. Mas sobre isso as autoridades da Fazenda preferem, aparentemente, manter-se discretas.

O saldo comercial melhorou nas duas primeiras semanas de fevereiro, com exportações de US$ 7,69 bilhões e importações de US$ 6,34 bilhões. O valor faturado foi 14,9% maior que o de um ano antes. O valor importado foi apenas 2% superior ao de igual período de 2011. Os números acumulados a partir do início do ano mostram, no entanto, um quadro muito diferente. O saldo é positivo, R$ 59 milhões, mas a receita é apenas 3,7% maior que a da base de comparação, enquanto a despesa está 10,1% acima do valor de 2011.

Qual dos dois conjuntos de cifras corresponde à tendência de 2012? Se os valores das duas primeiras semanas de fevereiro forem a resposta certa, o aumento das vendas de manufaturados (29,2%) garantirá as contas externas do País no meio da crise internacional. As vendas de semimanufaturados também não foram mal, com valor 10,5% maior que o das duas semanas correspondentes de 2011. A crise, nesse caso, estaria refletida somente nas exportações de produtos básicos, com receita 6,4% acima da obtida no período tomado como base de comparação.

Se esse for o caso, será um exemplo espantoso de mudança das condições de comércio, porque a indústria brasileira terá recuperado, de uma hora para outra e de forma quase milagrosa, seu poder de competição. Em 2011, as vendas de manufaturados foram apenas 16% maiores que as de 2010, enquanto as exportações totais cresceram 26,8%, puxadas pelos produtos básicos (36,1%) e pelos semimanufaturados (27,7%). Essa tendência vem de muito tempo. Em 2000 os manufaturados proporcionaram 59,1% da receita.

A porcentagem diminuiu seguidamente nos anos seguintes, até chegar a 36% no ano passado. Isso se explica não só pelo aumento de preços e pela expansão das vendas de commodities, mas também pelos crescentes e bem conhecidos problemas de competição da indústria.

O recente salto nas vendas de manufaturados dificilmente se repetirá durante a maior parte do ano. Se se repetir, será uma surpresa, porque nenhuma análise recente permite prever essa evolução. Mas o temor de um desempenho mais modesto do setor de commodities, neste ano, ainda não é descartável. Isso dependerá das condições da economia europeia, por enquanto nada animadoras, e do ritmo de crescimento chinês. As previsões até agora disponíveis apontam para um dinamismo menor na China, embora a produção ainda possa crescer uns 8% ou pouco mais. Se ainda houver sobra de dinheiro nos mercados, a especulação também poderá dar algum suporte às cotações dos básicos.

Por enquanto, a discrição do governo federal quanto às perspectivas da balança comercial é perfeitamente compreensível, mesmo com a promessa de novas medidas comerciais. Até agora, essas medidas têm sido principalmente defensivas.

O boletim do Ministério da Fazenda contém, no entanto, algumas das bravatas e autolouvações habituais. O superávit comercial do ano passado, US$ 29,8 bilhões, é atribuído “à contínua diversificação dos mercados e à elevação dos preços das commodities”. Essa evolução tem correspondido, na prática, a uma dependência crescente da China e, portanto, do apetite chinês por matérias-primas (aí entra, também, o fator preço).

Entre 1990 e 2011, a participação chinesa nas compras de produtos brasileiros cresceu de 1,77% para 17,31%, enquanto declinaram a dos Estados Unidos e a da União Europeia (estes dois mercados, no entanto, ainda são importantes importadores de manufaturados made in Brazil). Essa “diversificação” se deve em grande parte à disposição chinesa de buscar matérias-primas em qualquer parte do mundo e à perda de oportunidades nos mercados tradicionais, por miopia ideológica. Graças a essa miopia, o Brasil tem hoje uma dependência quase colonial em relação à China.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 15/02/2012

RELACIONADOS

Deixe um comentário