Proposta elaborada por um grupo de amigos que passeava de carro pelo aprazível bairro das Laranjeiras, num sábado de chuva após uma sexta de enchente.

Ninguém gosta de pichações. São apenas rabiscos de spray, usualmente feitos por adolescentes com sérios problemas de auto-afirmação, segundo o que um ex-pichador me confidenciou recentemente. Há uma maneira simples, e bem brasileira, de resolver este problema das grandes cidades: estatizar a pichação.

Primeiro, no Brasil, do PT, é preciso abandonar essa visão burguesa e parar de chamar pichador de pichador, com uma conotação negativa. Pichadores são “artistas do grafite” e, sendo artistas, têm direito ao apoio do governo, que poderia abrir uma licitação para a construção de muitos muros para que, enfim, os artistas do grafite, pudessem fazer arte sem incomodar ninguém. Mas logo descobririam que houve fraude na concorrência, ou que os muros eram superfaturados. Os “artistas” também se sentiriam discriminados porque os muros ficariam em áreas isoladas, e sua arte se fundamenta no abuso – desculpem, no uso – da propriedade alheia. Logo, a única solução seria reservar uma área no muro de cada prédio para o grafite.

Naturalmente, há desdobramentos. Seria formada uma comissão para medir a área justa para o grafite em cada prédio. Fiscais da prefeitura iriam a todos os edifícios para demarcá-las. Depois, todos os “artistas” precisariam se registrar e obter licenças. Apenas determinados tipos de tintas seriam permitidos. Seria formado um Sindicato dos Artistas do Grafite que cobraria R$100 de anuidade. Depois disso, cada “artista” teria que apresentar à Secretaria de Cultura o projeto de seu grafite e demonstrar sua função social, como ele contribui para a cidadania, como respeita a cultura nacional etc. Seria instituída uma cota para pichadores de qualquer raça que se sinta mal representada na ilustre classe. Os melhores prédios, os mais visíveis, só seriam obtidos para a pichação através de muito lobby, uso de despachantes, contatos etc.

E assim, seduzidos pelo discurso que pretende dar cidadania à pichação, que pretende elevá-la diante da sociedade, tirando o marginal do artista, os pichadores abraçariam seu novo estado de direito, sem perceber que a burocratização de sua prática poderia ser mais eficaz do que a repressão policial no intuito de combatê-la.

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1 comment

  1. Lais

    BOM