Sábado, 3 de dezembro de 2016
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Como o Brexit pode significar mais globalização

A decisão britânica de se divorciar da União Europeia (UE) tem sido interpretada pela maioria dos analistas internacionais como uma “puxada de tapete” na globalização.

Carmen Reinhadt, professora de Harvard, fala em “golpe” na globalização, na medida em que uma das motivações que levaram à opção pelo rompimento britânico foi o sentimento contrário à mobilidade do fator trabalho, sobretudo na forma de ausência de barreiras a imigrantes.

Jeffrey Sachs, de Columbia, identifica no Brexit sintomas dos “males profundos’ da globalização, como a ênfase da política externa dos EUA na promoção de incursões militares externas, e não no apoio ao desenvolvimento sustentável.

Mas talvez o que esteja ocorrendo seja a possibilidade de construção de uma “globalização por outras vias”.

Um dos principais motores da cena internacional no período pós-Guerra Fria foi a integração regional como ponto de passagem para um mundo mais global.

Era bastante popular no início dos anos 1990 a hipótese de que o mapa geoeconômico estava se delineando em função dos “building blocks”.

Isto é, entidades supranacionais, como a UE, absorveriam soberania dos Estados nacionais e, em troca, lhes ofereceria acesso privilegiado a espaços ampliados junto ao mercado de seus países vizinhos. E não apenas em bens e serviços, mas também em termos da livre circulação de pessoas e facilidade para transações financeiras.

Por essa abordagem, a integração se daria em duas dimensões. Na primeira, o movimento “vertical” (com tribunais, parlamentos, política agrícola, medidas técnicas e passaportes comuns). Na segunda, o aspecto “horizontal”. Aqui, tal dinâmica se daria sobretudo no instante em que, com o desaparecimento da influência soviética, seria possível à UE ambicionar uma “expansão ao leste”.

Seria, portanto, possível agregar à UE, como de fato ocorreu a partir de maio de 2004, países como República Tcheca, Hungria ou Polônia, que há um tempo integraram a chamada “Cortina de Ferro”, e mesmo os bálticos Estônia, Letônia e Lituânia, que Stalin havia incorporado à URSS em 1944.

Nesse contexto, cabe a seguinte reflexão: a UE, ao longo de sua evolução, representou sem dúvida uma importante ferramenta para propiciar estabilidade e mais integração econômica no espaço intraeuropeu. No entanto, seriam as atuais tendências para o comércio da UE com o resto do mundo mais protecionistas ou liberais? A UE, mais especificamente no campo econômico, é uma máquina niveladora de um “mundo plano”, expressão utilizada na década passada pelo jornalista Thomas Friedman para descrever a hiperglobalização?

Os países em desenvolvimento, em especial aqueles mais dependentes da exportação de commodities agrícolas, enxergam a UE mais como um obstáculo do que um facilitador para o comércio em que a maior parte do mundo emergente apresenta vantagens comparativas.

Isso fica bastante claro nas inúmeras barreiras tarifárias e não-tarifárias, e em particular no estabelecimento de intrincadas normas técnicas, que a UE impõe na arena multilateral, como a Organização Mundial do Comércio (OMC) ou nas negociações bloco-a-bloco, caso das tratativas Mercosul-UE, que se arrastam há 17 anos.

Poucos contestariam a noção de que, na esfera agrícola, a UE tem representado menos, e não mais globalização. E mesmo em setores industriais, no que toca ao resto do mundo, a Europa é mais parecida com um veículo de integração comercial ou um ator protegido por sofisticados escudos das mais diferentes ordens?

O Brexit dá ao Reino Unido espaço de manobra e velocidade para acordos de qualquer natureza e com o parceiro que desejar. Nesse cenário, poderia adquirir um perfil de nação-comerciante bem mais pronunciado do que apresenta hoje.

É muito cedo —e ainda pouco provável— que esses vetores favoráveis a mais livre comércio sem as limitações impostas por pertencer à UE predominem sobre o sentimento de “proteção de individualidade” que governou a decisão britânica.

Ainda assim, se nos próximos dois anos, período previsto para o transcurso do divórcio, os britânicos multiplicarem acordos comerciais e desregulamentarem sua economia, isso incentivará mais, e não menos globalização.

Fonte: Folha de S.Paulo, 06/07/2016.

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