Como criar escolas não extrativistas: o exemplo de Xangai

Numa reunião sobre educação, um jovem professor se levantou e disse: “Há escolas que são meramente extrativistas”. Ante a perplexidade geral, ele esclareceu que se tratava de unidades que sugavam o que os docentes traziam de sua formação inicial na universidade, mas não agregavam nada que os fizessem aprimorar o seu trabalho.

Ao ouvi-lo, pensei em uma escola que visitei em Xangai. Vi lá professores dando aulas, mas também debatendo em grupos. Quando quis saber o que faziam, foi-me explicado que preparavam em conjunto planos de aulas, mostravam-nos aos colegas que não participaram da reunião e depois os convidavam para assistir às suas aulas. Quando perguntei se todos permitiam que outros professores assistissem, eles estranharam minha pergunta. Todos, por que não? É a melhor maneira de se aperfeiçoar como mestre.

Cada professor tem também um programa de estudo — dentro da escola. Normalmente coletivo, o estudo desdobra-se numa série de textos a serem lidos e palestras que um professor faz aos demais. Além disso, a escola constitui um espaço de pesquisa aplicada, com a ajuda da universidade.

No caso dessa escola, a Universidade Normal de Xangai é responsável por coordenar pesquisas aplicadas, envolvendo os professores e a direção. Essas pesquisas dizem respeito a problemas concretos sentidos pelos docentes em sua prática cotidiana. Perguntei por exemplos de pesquisas e a diretora citou dois deles: dificuldades com disciplina no sétimo ano e como promover a criatividade no ensino de cada matéria.

Realmente, essa escola não tem nada de “extrativista”. Ela investe na formação de seus professores, de forma não paternalista, fazendo-os se sentir como parte integrante de uma coletividade que aprende e pode, assim, tornar todos melhores profissionais. Não por acaso, Xangai se saiu como um dos melhores sistemas de educação no Pisa.

A realidade brasileira é bem diferente e não cabe uma transposição mecânica do que fazem outros países, mas certamente poderíamos nos desafiar a pensar a escola como um espaço de construção coletiva e de formação de seus próprios professores. Reservar o tempo de atividade extraclasse para formação, pesquisa aplicada, com ajuda da universidade e planejamento conjunto, centrado no trabalho a ser feito em sala de aula, é um bom caminho.

Finalmente, caberia aos secretários e diretores criar condições para que isso ocorra, ampliando o espaço interno de trabalho coletivo dos professores e equipando-o com computadores, mesas individuais e de reunião, material de pesquisa, inclusive digital. Sem isso, as escolas certamente serão percebidas como extrativistas…

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 10 de fevereiro de 2017.

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