Como eles fazem sem Lula

O governo passa por um desconforto político, porque suas principais lideranças, incluindo o presidente, disseram que a crise econômica era um problema dos países ricos, criada e sofrida por eles. Esta Nação, portanto, passaria ao largo da crise. E, entretanto, eis a Nação apanhada por uma pesada recessão.

Lula e o Brasil?

Nada disso, a Rússia do primeiro-ministro Vladimir Putin e de seu teleguiado, o presidente Dmitri Medvedev. Eles disseram a mesma coisa que Lula, com as diferenças locais. Putin, por exemplo, não falou de “marolinha” nem pôde pôr a culpa nos “brancos de olhos azuis”, nesse caso por razões óbvias.

Os dois líderes foram apanhados na mesma armadilha. Atribuíram à eficiência de seus governos a prosperidade dos anos anteriores à crise, escondendo a circunstância de que grande parte desse crescimento estava no embalo da onda mundial.

Assim, quando começou a crise, disseram: é coisa dos brancos ricos de olhos azuis (Lula) ou do Ocidente (Putin), e não nos atinge. Quando atingiu, veio o desconforto: se a prosperidade anterior não dependia do mundo, por que a crise dependeria?

A saída é minimizar a crise, como faz o presidente Lula ao dizer que ela, aqui, será mais curta e mais branda do que no resto do mundo.

Já para a Rússia esse discurso é mais difícil. O país mergulhou numa profunda recessão. No primeiro trimestre deste ano o PIB caiu 9,5%, em relação ao mesmo período de 2008. A previsão para este ano é de uma queda de 5%, um tombo tanto maior quando se verifica que o país vinha crescendo a um ritmo de 9% ao ano.

Causa: a enorme dependência de petróleo e de gás. O país nadou em dinheiro com o óleo a US$ 150 o barril e desabou junto com os preços da crise.

No Brasil a queda é mais branda, mas só em relação à Rússia. É mais pesada do que nos outros dois países do grupo dos Brics, Índia e China. Na comparação dos primeiros trimestres de 2009 e 2008, a China cresceu 6,1% (vindo de 11%, em 2008) e a Índia, 5,8% (8,8%, no ano passado).

Brasil e Rússia (esta mais) são exageradamente dependentes de commodities. China e Índia têm economias mais diversificadas, com mais peso nas exportações de manufaturas (especialmente a primeira) e serviços (a segunda). Por isso ambas têm maior capacidade de reação – o que, aliás, é uma boa notícia para o Brasil. A China é nossa principal freguesa em commodities e parte da retomada recente do Brasil decorre da volta das importações chinesas.

Brasil e Rússia têm um mérito em comum: aproveitaram a bonança do início deste século para acumular reservas internacionais (a Rússia chegou a US$ 370 bilhões), o que é um seguro para ultrapassar a crise. Mas os dois países têm falhas comuns, sendo a principal a de ter perdido a oportunidade de fazer reformas que ampliassem e melhorassem o desempenho econômico.

Na política, os quatro países apresentam situações bem diferentes. Brasil e Índia são duas democracias de massa (e a indiana é a maior do mundo, com mais de 700 milhões de eleitores) e suas lideranças passam bem pelo teste da crise. Na Índia, o Partido do Congresso, do primeiro-ministro Manmohan Singh, acaba de vencer eleições nacionais com ampla maioria. No Brasil, o presidente Lula exibe recorde de popularidade e aprovação.

Cada um à sua maneira, os dois líderes conseguiram convencer a população de que não são culpados pela crise e de que constituem a melhor alternativa para administrá-la.

Lula com seus métodos: intensa propaganda oficial (o programa Minha Casa, Minha Vida não levantou uma parede sequer, mas ocupa minutos de horário nobre e páginas nobres); discursos diários nos quais martela seus slogans (como o de que a crise é menor no Brasil, versão que não resiste a um segundo de análise); e um ativismo governamental (a refinaria de Pernambuco mal está na terraplenagem, mas já foi palco de uma meia dúzia de eventos).

Na Rússia e na China, as lideranças não têm essa preocupação. Na primeira, há uma democracia de araque, em que ser de oposição dá cadeia ou morte. Na melhor das hipóteses, processo por sonegação fiscal – isso num país onde a corrupção se espalha por todos os níveis de governo.

Na China, de que é mesmo que se estava falando, de democracia o quê?

E, curiosamente, todos os quatro governos trazem uma vantagem comum: oposições fracas, que não sabem como se opor.

Tudo considerado, verifica-se que os emergentes em geral e os Brics em especial sofrem com a crise da mesma maneira que se beneficiaram do período anterior de prosperidade. Todas as lideranças garantiram, no início, que a crise era coisa de Wall Street e da Europa e, depois, que sairiam do buraco mais rápido.

Na vida real, os países que vinham na turma do meio, como o Brasil, saem mais ou menos. Os países que vinham melhor – como China e Índia, mais Austrália – reagem melhor. E, pelo que se ouve por aqui, é o caso de perguntar: como é que eles conseguem isso sem ter o Lula?

Falha de governo – Da revista The Economist: nos anos 70, quando sofreu a concorrência dos carros japoneses, a GM, em vez de responder com produtos melhores, correu atrás dos políticos em busca de proteção.

Assim foi. E hoje precisa de ajuda do governo para fazer um ajuste muito mais doloroso. Só o governo Obama está colocando mais US$ 50 bilhões na empresa – isso para criar uma nova GM, com o fechamento de 14 fábricas, demissão de 29 mil trabalhadores e eliminação de 2.400 revendedores.

(O Estado de SP – 15/06/2009)

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1 comment

  1. João Nemo

    Às vezes, certas coisas ruins são feitas para evitar outras piores. No caso da GM tenho grandes dúvidas e acho essa contabilidade meio complicada. Tenho a impressão de que deixar quebrar, embora doloroso, ainda seria mais razoável do que enterrar lá esse dinheiro todo.