As lições da Nova York da década de 1970

Insegurança, falência institucional e dívidas: Nova York em 1970
A trajetória da cidade talvez mais famosa do mundo, Nova York, serve para mostrar que decisões e sinalizações governamentais equivocadas podem, sim, desencadear um estado permanente de crise institucional e uma combinação bombástica de recessão, fuga de investimentos, queda nos cuidados com a cidade e aumento da criminalidade.

Ainda na década de 1980, a cidade era bem diferente do que é hoje, em que Manhattan é quase toda uma vizinhança de classe média e alta, incluindo boas partes do Harlem. O Bronx ainda é uma área em transformação urbana, e que lembra, um pouco, o que era a cidade nos anos 1970 e 80. Regiões como o Harlem e Bowery e mesmo parte do Brooklin atingiam um grau de degradação de que não tínhamos noção no Brasil naquela época. Os taxistas olhavam de esguelha, meio apavorados, quando se falava em ir a estas regiões.

O início da história dessa Nova York “barra pesada”, que começou a fazer parte do passado definitivamente a partir da década de 1990, é catapultada a partir da recessão causada pela Crise do Petróleo durante os anos Nixon e Gerald Ford nos EUA. Entre 1970 e 1975, Nova York perdeu quase 500 mil empregos formais, com uma fuga de investimentos e negócios sem precedentes. Nos anos de 1973 e 1974, o município de Nova York praticamente decretou falência, se vendo obrigado a reduzir os gastos públicos em infraestrutura, limpeza e segurança drasticamente. Mais de 20% do contingente de trabalhadores em áreas de serviços públicos e polícia foram dispensados, pois a cidade simplesmente não tinha como honrar com seus compromissos.

O resultado deste muito alardeado corte foi pior do que o esperado: simplesmente se espalhou rapidamente um sentimento de semi pânico de que a cidade estava “entregue às traças”, fazendo com que os assaltos e homicídios tenham triplicado entre 1970 e 1975, e grandes áreas da cidade passassem a viver em limites mais elásticos de limpeza e cuidado. Nova York até era relativamente insegura, mas acima de tudo era aterradora, e muito suja. O auge dessa situação foi um blackout geral que durou 72 horas em 1977, atribuído a diversas causas, em meio a uma greve da polícia.

A quem chegava no aeroporto da cidade em 1975, voluntários distribuíam um “guia de sobrevivência”, que recomendava não sair à noite, não andar no metrô, entre outras medidas que transitavam entre a precaução e o terrorismo.

Gestão de crise
Mas o que mais chamou atenção no caso de Nova York foi o rápido estopim da situação de crise, que afugentou negócios, pessoas e investimentos, fruto principalmente de governos que não souberam lidar com as dificuldades e semearam um sentimento de desleixo e insegurança que durou anos ao se declarar “impotentes diante da situação” e escancarar que os serviços públicos, inclusive de segurança, estavam muito comprometidos pela situação financeira e pela crise econômica e seriam reduzidos. Ao não saber lidar com esse impacto na sociedade, agravaram uma situação que demorou décadas para ser revertida e controlada.

Essa é uma lição que ficou para a história. A distância entre saber lidar com crises, no sentido de debelá-las e controlá-las, ou simplesmente “perder a mão” e potencializá-las é tênue. A combinação de recessão prolongada, crise financeira das instituições, desleixo e insegurança pode ser fatal para uma cidade. E a sua estratégia de reversão exige envolvimento, liderança, e muito mais do que mais do mesmo.

Fonte: “Gazeta do povo”, 12 de outubro de 2016.

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