Como pagar a conta?

A quase estagnação da indústria não é novidade. No entanto, recentemente surgiram novos contornos preocupantes no quadro da atividade econômica. O enfraquecimento dissemina-se entre os setores, conforme sugerido pelo recuo dos indicadores de confiança dos empresários dos vários setores. Provavelmente não por coincidência, surgem sinais de deterioração das condições financeiras das empresas.

Calculando um índice composto de confiança total, com base nas sondagens da FGV, nota-se que a confiança média dos empresários atingiu 113,9 pontos em abril ante 119,9 em dezembro de 2013, o menor nível da série iniciada em 2010, sendo que o subíndice de condições atuais rompeu a barreira de neutralidade de 100 pontos, atingindo 95,5 pontos ante 110,3 em dezembro, descontado o padrão sazonal. Os empresários estão cada vez menos confiantes.

Um possível fator pesando no humor dos empresários é a deterioração da situação financeira das empresas, de acordo com alguns indicadores disponíveis. São sinais ainda incipientes, mas que podem estar apontando para algo maior.

Provavelmente não por coincidência, surgem sinais de deterioração das condições financeiras das empresas

O indicador de inadimplência da pessoa jurídica da Serasa-Experian – que contabiliza o número de indicações negativas em dívidas bancária e não bancária, protestos e segunda devolução de cheques sem fundo – descolou-se de sua linha de tendência e cresceu 7% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. Este resultado, ainda que incipiente, emite sinais incômodos de um indicador que indicava acomodação até recentemente, após o salto em 2011.

Os índices de atraso no pagamento de dívidas bancárias e de inadimplência (atraso acima de 90 dias) da pessoa jurídica, divulgados pelo Banco Central, mantêm-se relativamente estáveis. A soma de ambos tem oscilado em torno de 3,5% desde meados de 2013.

No entanto, os dados abertos não indicam conforto. No chamado crédito livre – que reflete melhor as condições financeiras de empresas, pois o prazo médio de empréstimo é curto, atualmente de 27 meses contra 105 no crédito direcionado, e com taxas de juros de 21% aa contra 7,5% – o índice está mais elevado e voltou a crescer, atingindo 6% em março, não muito distante do pico de 6,5% do final de 2012. Como agravante, destaca-se o aumento da inadimplência na modalidade cheque especial, o que é um sinal particularmente ruim pela sua taxa de juros punitiva.

A maior dificuldade de acesso ao crédito, conforme indicado pela sondagem industrial da CNI, pode ser agravante, pois dificulta a rolagem de dívidas pelas empresas. Enquanto isso, a demanda por crédito se eleva, de acordo com o indicador da Serasa-Experian.

É possível que o aumento da demanda de crédito esteja mais associada ao refinanciamento de dívidas para evitar a inadimplência do que ao aumento de produção ou investimento. Isso é particularmente provável para indústria, cuja modesta performance tem sido acompanhada de significativa elevação da demanda de crédito.

A qualidade da concessão de crédito tem piorado, pelo dados do BC. Problemas de liquidez podem estar, em parte, se transformando em problemas de solvência, enquanto que investimentos minguam.

As modalidades de crédito mais associadas a problemas de solvência têm crescido em ritmo mais acelerado: cheque especial e cartão de crédito rotativo e parcelado, que somadas cresceram 12% no primeiro trimestre na comparação anual versus 5% do crédito total. E são, por sua natureza, justamente aquelas com maior taxa de juros. Já as modalidades associadas a investimento – capital de giro de longo prazo, aquisição de bens e arrendamento mercantil -, com taxas de juros mais baixas, têm tido menor ímpeto, com redução de 16% na concessão de crédito.

Insistir na ênfase de políticas setoriais, socorrendo alguns em detrimento dos demais pode se mostrar um grande erro

O retrato acima está incompleto, pois não capta a dinâmica de financiamento via mercado de capitais. De qualquer forma, pode representar de forma adequada as condições financeiras de empresas que não são de grande porte, e que por sua vez são também clientes das empresas de grande porte. A fragilidade deste grupo numeroso afeta o equilíbrio de todos.

Não à toa a palavra de ordem nas empresas tem sido de corte de custos e maior conservadorismo na gestão da folha de pagamentos. As forças de mercado podem falhar, mas funcionam. Diante das dificuldades, o empresário reage.

A reação das empresas, no entanto, nem sempre é positiva. Cortes de custos pode ajudar a recuperar margens no curto prazo, num contexto de avanço mais moderado de faturamento. Entretanto, não necessariamente contribuem para o bom funcionamento e sobrevivência das empresas no futuro. Empresas reagindo às dificuldades via corte de gastos com investimentos e gastos associados à racionalização de processos, ganhos de eficiência e melhorias na gestão é má notícia.

O problema é de todos. Insistir na ênfase de políticas setoriais, socorrendo alguns em detrimento dos demais pode se mostrar um grande erro. Desestimula setores que foram deixados de lado e protege, muitas vezes, setores que não são competitivos. E o custo é de todos.

Que a reação do governo seja na busca de políticas horizontais que beneficiem a todos e que criem os incentivos para a reação saudável das empresas, induzindo ganhos de eficiência e construindo alicerces para ganhos de produtividade da economia adiante.

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