Sábado, 10 de dezembro de 2016
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Como o PT travou o crescimento do Brasil

No período Lula, a economia cresceu em média 4% ao ano, incluindo insustentáveis 7% em 2010. Depois, desacelerou. No primeiro mandato de Dilma, a média caiu para 2,1%, com medíocre 0,1% em 2014. Por que isso?

O crescimento na era Lula dependeu muito de dois fatores alheios à sua ação: 1) as reformas de governos anteriores, que demoraram a frutificar; 2) a China, que virou o maior importador de nossas commodities, um maná dos céus cujo efeito nos deu, grátis, o equivalente a expressivos ganhos de produtividade.

A crise mundial e o fim do ciclo de commodities impactaram a economia, mas o pior veio dos erros internos

Lula colheu frutos de árvores que outros haviam plantado. Isso é natural. Um governo planta, outro colhe. Bill Glinton (Estados Unidos) e Tony Blair (Reino Unido) se beneficiaram de reformas de seus antecessores, Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Lula insinuava, porém, que o mérito era somente seu. Pior, dizia que recebera uma “herança maldita”, ao contrário de Clinton e Blair, que sempre reconheceram méritos do passado.

Lula mudou o script. Quem colhe planta novas árvores para o futuro, mas ele o fez por pouco tempo, enquanto Antonio Palocci seria o ministro da Fazenda. Depois, parou. Em seguida, ervas daninhas (a nova matriz macroeconômica de Mantega e o retrocesso das intervenções de Dilma) contaminaram o pomar. A colheita caiu e agora sumiu. Clinton e Blair plantaram novas árvores e cuidaram das que herdaram.

O PT fez tudo errado depois que Palocci saiu. Interpretou, equivocadamente, que a crise financeira mundial de 2008 era a senha para adotar ultrapassadas ideias econômicas do partido. Prolongou, sem razão, medidas tomadas para enfrentar essa crise. A ideologia se sobrepôs à teoria que explica o crescimento.

O crescimento vem do investimento, da incorporação de mão de obra e da produtividade. Estudo recente diz que a produtividade explica 80% do crescimento da economia americana nos últimos setenta anos.

A produtividade advém de muitas fontes: qualidade das instituições, nível profissional dos trabalhadores, gestão das empresas, inovação, logística, ambiente de negócios e outras. Os recursos elevem ser alocados em atividades mais produtivas, o que aumenta a eficiência.

O PT contrariou praticamente tudo isso. Foram muitos os erros, o principal deles na política econômica. O diagnóstico de escassez de demanda foi um tremendo equívoco. Estimulou-se o consumo com gasto público, desonerações tributárias, queda voluntarista da taxa de juros e mais crédito nos bancos oficiais. O problema era, todavia, a baixa competitividade da indústria, isto é, a oferta.

O excesso de consumo vazou para as importações e os serviços. A balança comercial e as pressões inflacionárias pioraram. Salários que subiam acima da produtividade elevaram o custo unitário do trabalho, o que se agravou com a valorização cambial. A competitividade da indústria despencou e seu ritmo de crescimento diminui desde 2012.

O uso político da Petrobras e sua consequência, a grossa corrupção, acarretaram queda de 30% em suas inversões em 2015, as quais representam 10% do investimento do país.

O controle de seus preços, para disfarçar a inflação, retirou oxigênio financeiro da empresa para investir. Resultado: mais ineficiência, menos crescimento.

A equivocada mudança do marco regulatório do pré-sal impôs à Petrobras a exigência de ser a operadora única de todos os poços e de participar com pelo menos 30% dos investimentos na área. A regra de conteúdo local mínimo dobrou o preço de navios e sondas adquiridos pela empresa. Mais ineficiência.

O adiamento de leilões do pré-sal reduziu oportunidades. Com a abertura do setor ao capital estrangeiro, o interesse se desviou para o México e, depois do acordo nuclear, para o Irã. O preço do petróleo tende a cair.

Por ideologia ou incompetência, o PT não realizou reformas estruturais essenciais para elevar a produtividade. Deixou de plantar. O ritmo de ganhos de produtividade foi apenas de minguado 0,5% ao ano desde 2003. O potencial de crescimento baixou de 4,5% para 1,5%.

A crise mundial e o fim do ciclo de commodities impactaram a economia, mas o pior veio dos erros internos. Foi o PT que travou o crescimento do Brasil.

Fonte: Veja, 09/08/2015.

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