Como terminar uma guerra

Há algo de diferente no debate público americano. Em Washington, que por sete anos foi o palco nacional de protestos contra a presença militar americana no Oriente Médio, o ativismo anti-guerra praticamente desapareceu. Hoje, não se vê mais a grande agitação contra a guerra americana. A euforia esfriou. Os cartazes se descoloriram. A esquerda hoje tem outras preocupações. Evidência disso é que os participantes da convenção progressista Netroots Nation declararam que a guerra hoje ocupa a última colocação na lista de suas prioridades pessoais.

Quem se informa exclusivamente pelo termômetro do descontentamento público acreditaria que a guerra terminou, que os soldados voltaram para seus lares, que os atentados deixaram de ocorrer, e que a estabilidade no Iraque está sob controle. Tão sob controle que o modelo de nation building agora deve ser exportado para o Afeganistão. A defesa aberta de Obama da necessidade de intensificar as operações militares em terras afegãs não provocou alarde. O fato de o mês de julho ter sido o mais sangrento para a ocupação americana no Afeganistão também parece ter passado despercebido. Apesar de Obama ter sido eleito com uma campanha que prometia uma verdadeira alternativa ao consenso bélico de Washington, o orçamento de defesa americano para o ano fiscal de 2010 será de 534 bilhões de dólares, 19 bilhões a mais do que em 2009.

A impressão é que para se terminar uma guerra, pelo menos no imaginário americano, não é preciso uma mudança de comando, apenas de comandante. Com a entrada de Barack Hussein Obama na presidência do país e na posição de Commander in Chief das forças armadas, subitamente as vidas de civis e dos soldados americanos no Afeganistão e no Iraque (cuja ocupação está prevista para continuar até o final de 2011), deixaram de ser tão importantes assim.

Tudo isso faz um observador indagar se a oposição à guerra era uma posição de princípio ou uma bandeira partidária.

Mas os republicanos devem tomar cuidado antes de chamar atenção para a hipocrisia de seus oponentes políticos, porque a mudança de atitude do seu próprio partido também merece o mesmo rótulo. Quando chamam de socialismo as políticas macroeconômicas do presidente Obama, e de antiamericana sua intervenção nos assuntos privados da sociedade, dá vontade de perguntar: “onde vocês estavam nos oito anos anteriores?” Nenhum presidente americano desde Lyndon Johnson havia aumentado tanto os gastos públicos quanto Bush. A política do bailout começou com o TARP de Henry Paulson, o secretário do tesouro na administração republicana, e teve todo o apoio do presidente, da maioria do partido e, por conseqüência, dos americanos que se consideravam conservadores.

Democratas e republicanos americanos trabalham melhor como oposicionistas do que como governistas. É como se a cegueira dos conservadores sob Bush tivesse contaminado os progressistas sob Obama. Os democratas estavam certos antes: a proposta de construir uma república democrática no Iraque a partir de Washington era um projeto de uma arrogante engenharia social. E os republicanos estão certos em denunciar os elementos socializantes da política econômica de Obama, que pode ter danosas conseqüências para a saúde monetária dos Estados Unidos nos anos vindouros. Mas basta uma troca de poder para que as denúncias mais ferozes sejam logo esquecidas.

Para realmente se manter a objetividade no debate público e promover a causa humana independentemente das circunstâncias, o primeiro requisito é a independência política. Lealdade deve ser mantida a princípios imutáveis, não à volatilidade dos partidos políticos.

(Publicado em OrdemLivre.org)

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1 comment

  1. claudio mafra

    O Iraque não foi invadido para se “construir uma república democrática…. arrogante engenharia social” Isso é um sub-produto. O Iraque foi invadido por ser uma AMEAÇA aos Estados Unidos. Como decorrência da invasão, o óbvio ululante, é que se tentaria uma democracia . Qual seria a outra opção ? E, veja, a pessoa em todo o mundo que mais conhecia a dificuldade de se ocupar o país era justamente Bush. Por que? Exatamente porque seu pai, NÃO QUIS OCUPAR O PAÍS NA GUERRA DO GOLFO, já que era conhecida a extraordinária dificuldade em se controlar a imensa maioria xiita, basicamente hostil aos Estados Unidos. E Saddam era um mestre nessa matéria. Os xiitas ficaram quietinhos durante seu reinado. Ainda não deu para perceber que essa acusação de ingenuidade ao querer uma democracia no Iraque é uma infantil, absurda invenção dos Democratas ? Bush ouvia seu pai no café da manhã, almoço e jantar. E tem mais , Bush-pai foi muito criticado por não haver deposto Saddam. E foi muito bom o ditador ter ficado lá, até o momento em que não era mais possível. Ninguém invadiu o Iraque para implantar uma democracia .