Olhando assim de primeira, não faz sentido. Como pode o governo Obama emprestar mais US$12,6 bilhões para a GM demitir 26 mil trabalhadores nos EUA e mais 21 mil pelo mundo afora? Só nos Estados Unidos, seriam US$484 mil por emprego destruído. Desse lado da história, o contrário faz sentido: o governo Obama deveria determinar que a empresa não pode demitir se receber dinheiro público.

Ocorre que a GM perde dinheiro todos os dias. Não se salvará se não conseguir uma brutal redução de custos. No mercado extremamente positivo dos últimos anos, a companhia mal se aguentou. Com a forte redução das vendas, pós-crise, todas as montadoras estão reduzindo sua produção nos EUA. Pois a GM precisa mais do que isso, precisa encolher, com alterações estruturais. Isso significa fechar fábricas, operar com menos marcas e… reduzir o número de trabalhadores.

A história já mudou. Agora, o governo Obama, emprestando para a GM, estaria, na verdade, comprando empregos. Sem a ajuda federal, a GM vai à falência, circunstância em que o encolhimento da empresa e a destruição de empregos serão devastadoras.

Com o dinheiro do contribuinte americano – e mais um tanto dos contribuintes de outros países onde tem fábricas – a GM acredita que se estabiliza com 200 mil trabalhadores pelo mundo. Empregos salvos. Mas como lidar com o impacto político e social das demissões?

Decisões de política econômica frequentemente impõem esses dilemas. Não é simples fazer a coisa certa, do ponto de vista econômico, e parecer certo do ponto de vista político.

Tome-se a questão do protecionismo. Se todo um setor da economia local não consegue competir com os chineses, para citar os culpados habituais, parece fazer sentido barrar as importações de modo a salvar as fábricas e os empregos nacionais. Mas, se é assim, por que não proteger toda a economia nacional.

Os custos dessa política não são visíveis a olho nu. Uma economia fechada torna-se cada vez mais ineficiente, e isso significa que suas empresas fornecerão produtos e serviços ruins e caros, para poucos consumidores. Não serão lucrativas e, assim, acabarão eternamente dependentes dos subsídios do governo e da proteção contra os importados. Os consumidores, de seu lado, ficarão reféns de fornecedores locais. Tudo resulta numa queda do comércio externo e, daí, em baixo crescimento da renda e do emprego.

Generalizada a opção protecionista pelo mundo, já que esse tipo de prática sempre provoca reações, todos exportam e importam menos, derrubando o crescimento global.

Isso é consenso no pensamento econômico. E a história já demonstrou várias vezes. Também já vimos isso aqui no Brasil, nem faz muito tempo assim.

Vimos também o processo de abertura que, aliás, não matou a economia nacional. Mas parece que as pessoas não aprendem com a história, nem aqui, nem no mundo.

Na sequência da crise de 1929, o Congresso americano aprovou a lei Smoot-Hawley, elevando tarifas de importação de milhares de produtos. Na ocasião, um manifesto assinado por mais de mil renomados economistas alertou para a ameaça, que se concretizou. Dado o peso dos EUA no mundo, o comércio global caiu quase 70% entre 1929 e 34, atrasando a recuperação de todos os países. O protecionismo prolongou a crise.

Hoje, praticamente todos os governos e instituições internacionais têm feito discursos antiprotecionistas. E o que se vê? Medidas protecionistas por toda parte. São mais fáceis de vender no mercado político. Além disso, os governantes alimentam a esperança de que seu protecionismo vai passar e o dos outros, não.

Parece estupidez, mas é mediocridade.

Apenas lideranças políticas do primeiro nível conseguem adotar essas medidas difíceis e, mais importante ainda, conseguem convencer a população de que esse é o caminho correto. E são necessários líderes em vários países, pois só uma ação coordenada pode barrar os protecionismos locais.

Olha-se por aí, e onde estão esses líderes? Obama era a esperança. Mas até aqui, pelo menos, ele não conseguiu barrar a cláusula do buy american em seu programa.

O Globo, 19/02/2009

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