Domingo, 4 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

A confusão das duas palavrinhas

Ainda me lembro da noite fria de Porto Alegre, num inverno qualquer dos anos 1980, em que aplaudi o velho líder comunista Luís Carlos Prestes. Não tenho bem certeza se eu, ou aquela plateia toda, sabia bem o que era o comunismo. Provavelmente não. Mas não importava. Ele vinha do exílio. Havia sido perseguido pela nossa ditadura. Era um dos heróis que aprendíamos a admirar, na faculdade. E era de esquerda.

Retratos do Brasil, no final do século passado. Não importava que o Muro de Berlim houvesse caído, que o mundo vivesse a era de Thatcher, Havei ou Lech Walesa e da abertura liberal. Por aqui, os heróis andavam para o outro lado.

Não havia como ser diferente. Tratava-se de uma herança do regime militar. O conceito de “direita”, na redemocratização, veio com um estigma incontornável. Por muitos anos, nenhum político brasileiro, com alguma perspectiva, e muito poucos intelectuais públicos assumiram o rótulo. Fomos um país de uma esquerda autodesignada e uma direita inexistente.

Dai porque a dicotomia, por estes trópicos, perdeu inteiramente o sentido. Tornou-se, quando muito, um exercício de adjetivação. Argumento ad hominem, um xingamento, feito aqui e ali, ao sabor da conjuntura. Fernando Henrique e Bresser Pereira, notáveis sociais-democratas, foram tidos como próceres da direita. Exercício de banalização, tedioso, repetitivo, mas por algum tempo eficiente, no dia a dia da política.

Falar em esquerda e direita ainda faz sentido nos dias de hoje? Talvez tenha sido de Norberto Bobbio, nos anos 1990, a última tentativa de dar alguma dignidade à dicotomia. Em seu livro “Direita e Esquerda”, sugeriu que a chave para compreender suas diferenças residia na ênfase – maior ou menor – na ideia da igualdade. A esquerda, dizia Bobbio, tende a perceber os homens como “mais iguais que desiguais”, e vice-versa.

Bobbio foi um intelectual de grande sofisticação, mas havia problemas evidentes em sua definição. O primeiro era desconsiderar que é o argumento liberal que supõe exatamente a tese de que os indivíduos são “mais iguais do que desiguais”. É a igualdade “de fato”, inspirada nas ideias do filósofo inglês Thomas Hobbes, que dá sentido às ideias de competição, mérito e responsabilidade individual, tão caras ao que Bobbio identifica como uma posição de “direita”.

Falar em esquerda e direita ainda faz sentido nos dias de hoje?

Outro problema era a suposição de que a sociedade ou a política possam ser reduzidas a “dois lados”. A tese de que tudo o que é pensado por todas as pessoas, em nossas democracias, possa ser empacotado em duas palavrinhas. Temas de eficiência do Estado ou qualidade da vida urbana. Demandas ambientais ou comportamentais. O casamento gay seria de esquerda? Evangélicos são de direita, então? Liberais não conservadores seriam de esquerda, pela mesma lógica? E a liberação do Uber, seria uma bandeira de direita? É o livre mercado, não? Perfeito, mas então os taxistas são de esquerda? Quem sabe. Quem sabe é apenas confusão. A confusão das duas palavrinhas.

A insistência na dicotomia esquerda e direita obscurece o espaço para o consenso, tão caro e cada vez mais evidente, nas democracias maduras. No Brasil, por exemplo, a estabilidade econômica seria de esquerda ou de direita? E a disciplina fiscal? Gastar dinheiro que não existe seria um problema ideológico? Garantir acesso universal ao ensino básico. Alguém discorda? E programas como o ProUni? Fora alguns militantes sindicais, alguém é contra? E a ética pública? Feita a devida reflexão, vamos descobrir que há mais espaço para consenso do que dissenso, em nossa democracia. Que a sociedade é feita de muitos lados e que a maior parte das questões em jogo, no mundo real das políticas públicas, passa longe da velha demarcação ideológica.

Talvez seja essa a melhor lição que podemos tirar da grande crise existencial em que o país se encontra. O Brasil obteve grandes sucessos quando conseguiu, nestas últimas décadas, avançar em alguns consensos. Quando o país saiu às ruas, na campanha das diretas, e pôs fim ao ciclo militar; quando foi intransigente com a corrupção, no impeachment do Presidente Collor; quando implementou o Plano Real, reafirmado, anos depois, em seus fundamentos, pelo então candidato Lula, na Carta ao Povo Brasileiro. Houve consenso em torno dos grandes programas sociais, como o Bolsa Família, e mais recentemente sobre a importância da plena liberdade de imprensa, como um valor definidor da nossa democracia.

Há razões para o otimismo. Quem sabe a falência do modelo da “nova matriz econômica”, tentada na segunda parte do governo Lula e na gestão da presidente Dilma, possa gerar um consenso definitivo em torno da responsabilidade fiscal no Brasil. É possível imaginar muitas coisas. Em muitas democracias maduras, o debate político tende a opor posições social-democratas e liberais, com uma ampla base de consenso, em torno de valores republicanos. Talvez seja o destino do Brasil.

Apenas não vejo nele um papel relevante para os conceitos de esquerda e direita. Não vejo sentido em manchar as primeiras luzes de um novo dia com os velhos fantasmas da noite.

Fonte: Revista Época, 24/08/2015

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.