Sábado, 3 de dezembro de 2016
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Conjecturas pós-ajustes

Passada a fase mais aguda de dura negociação das medidas fiscais no Congresso (ainda faltam, algumas, mas, ao que parece, o núcleo já foi aprovado), é importante tentar enxergar o que vem por aí. Quais devem ser os próximos passos do governo, dos seus policymaker (Joaquim Levy e Nelson Barbosa) e como a economia deve responder a esta fase dura de ajustes.

Tentemos traçar algumas possibilidades, pelo lado do ajuste de demanda, depois pelo lado da oferta, também falando dos possíveis próximos passos do BACEN, no balizamento da taxa de juros e no monitoramento da política cambial. São necessárias algumas considerações sobre o que deve vir no anúncio da chamada “agenda positiva”, mais focada em infraestrutura, nas concessões, e também na “tênue linha” na qual o ministro Levy tenta se equilibrar, até quando não se sabe. Se até o final do mandato ou até onde ele aguentar.

Ajuste pela demanda – As medidas fiscais anunciadas, mais pelo lado da demanda, no pacote de contingenciamento de despesas e corte de investimentos, além da política monetária do BACEN, devem derrubar a demanda agregada neste ano. Isto já pode ser observado na retração do consumo das famílias e dos investimentos no primeiro trimestre contra o anterior. O primeiro recuando 1,5%, o segundo -1,3%, com o PIB em -0,2%.

Contra o mesmo trimestre do ano passado, no entanto, o tombo foi feio. O PIB recuou 1,6%, com o consumo das famílias recuando 0,9% e os investimentos despencando 7,8% (quarta retração seguida de queda). Isto pode lançar-nos num “buraco negro” sobre o timing de retomada da economia, pois até o ministro Barbosa acha pouco plausível um ajuste rápido, devendo se estender por “dois anos”. Sendo assim, é possível prever um PIB ainda negativo no segundo trimestre, entre 1,0% e 1,5%, no terceiro recuando entre 0,5% e 1% e talvez, fechando no quarto, zerado ou recuando 0,5%, para possivelmente retomar ao longo de 2016. Isto só deve acontecer, no entanto, se o ajuste fiscal for suficientemente eficaz e bem sucedido no restabelecer da confiança.

É importante ressaltar que os investimentos públicos acabarão duramente afetados num primeiro momento, assim como o consumo agregado, tanto das famílias como do governo. O desafio, portanto, será com este ajuste reverter a desconfiança generalizada dos agentes e tentar voltar a estimular a expansão destas variáveis (menos o consumo do governo).

Ajuste pela oferta – O governo deve anunciar nos próximos dias um pacote de medidas na área de infraestrutura, nas concessões para aeroportos, estradas e ferrovias. Fala-se numa mobilização de recursos, tendo o BNDES na ponta, em torno de R$ 150 bilhões, mas será necessária a adoção de medidas pró-capitalismo, transparentes e “estimulantes” ao setor privado, sem a demagogia de impor tarifas baixas, inviabilizando o retorno sobre investimentos. Lembremos quem além do BNDES, outro aporte de recursos pode vir dos chineses. Este pacote de concessões, ao que parece, será mais um esforço de tentar antecipar uma agenda positiva, pró-retomada, tentando tirar a economia do imobilismo pós-ajuste (sobre este tema, Desafios do Crescimento, falemos na semana próxima).

Postura da política monetário-cambial – O BACEN elevou o juro em 0,5 ponto percentual na reunião do Copom da semana passada (dias 2 e 3) e deve realizar mais um ajuste, de 0,25 p.p., na reunião dos dias 28 e 29 de julho, para fixar a taxa em 14% neste ano. Pelo menos esta é a nossa visão de momento (pode ser alterada, diante de novos e imprevisíveis fatos). O objetivo aqui é perseguir o centro da meta em 2016, mas tudo dependerá do transcorrer do ajuste fiscal e do retorno da confiança.

Na gestão cambial também são complicadas as expectativas, dada a sinalização de que o Fed deve elevar o juro neste ano, entre setembro e dezembro. Na semana passada, diante dos bons indicadores no mercado de trabalho norte-americano (Payroll, 280 mil novas vagas contra expectativa de 225 mil e taxa de desemprego a 5,5% da PEA), começamos a trabalhar com uma antecipação do ciclo de ajustes por parte do Fed. A intensidade deste ciclo, no entanto, deve ser lenta o suficiente para evitar grandes turbulências nos mercados emergentes, com especial atenção para o Brasil, muito líquido e extremamente sensível aos movimentos de correção, tanto aqui como lá fora.

Como deve se comportar Levy – Este, talvez, seja o ponto mais preocupante. Os ruídos gerados nos desencontros entre Levy e Nelson Barbosa, depois de lançado o pacote de R$ 69,9 bilhões, fizeram crescer boatos de que Levy só deve ficar para o ajuste, para o “trabalho sujo”, deixando para Nelson Barbosa as “facilidades” de uma economia saneada e voltando a crescer (isto é o que se espera). Esta, inclusive, seria a tática do presidente Lula, fiador da nomeação de Joaquim Levy, mas agora migrando para o outro lado, diante das pressões das esquerdas e das hostes petistas. Não sabemos se o ministro Levy terá paciência para administrar tanto o “fogo amigo”, quanto a má vontade de alguns quadros do governo. Sua solidão preocupa.

Comentários finais – Não sabemos, em verdade, se todas estas conjecturas se confirmarão ao longo do tempo, ou como devem se tornar fato. Mantemos uma postura de observação atenta dos acontecimentos, dos movimentos do governo, da equipe econômica, das negociações com o Congresso, para tecer estas considerações e chegar a estas “parciais conclusões”. Tudo pode mudar nos próximos meses, mas, por enquanto, mantidas as condições atuais de temperatura e pressão (ceteris paribus), enxergamos estes fatos como os mais relevantes para os próximos meses.

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