O futuro das cidades e a educação

claudia costin

Construindo o futuro das cidades ancorado na educação

Sempre que se fala de educação no Brasil, há uma sensação de tristeza, dados os ainda baixos resultados de aprendizagem que apresentamos, mesmo que temperados por avanços em acesso à escola. Mas as crianças e adolescentes aprendem pouco, e daí a sensação de impotência que a percepção do limitado progresso vem causando: com esses resultados, não haverá desenvolvimento inclusivo, não haverá futuro.

Mas há também dados positivos, inclusive no campo da aprendizagem. A Prova Brasil tem mostrado um crescimento contínuo e consistente do desempenho das crianças no 5º ano, o que infelizmente não ocorre no 9º ou no 3º ano do ensino médio. Além disso, escolas e cidades, mesmo em áreas de vulnerabilidade, insistem em mostrar que o caminho da melhora é possível.

Como secretária de Educação do município do Rio, sempre me surpreendia com o desempenho de escolas situadas em favelas controladas pelo tráfico que, contrariando o prognóstico negativo, ofereciam educação de qualidade superior a outras com menores desafios. A principal causa: um bom diretor que mantinha, mesmo nesse cenário adverso, uma equipe estável de professores, comprometida com a aprendizagem dos alunos.

Mas o que dizer de Sobral, uma cidade no interior do Ceará que consegue um desempenho europeu nas escolas do município? Na última edição da Prova Brasil, atingiram média 8,8 no Ideb de anos iniciais e 6,7 no de anos finais.

Encontrei o ex-prefeito da cidade em Harvard e perguntei-lhe sobre o que gerou um resultado tão positivo. Ouvi-o atentamente e esperei uma fala “chapa branca”, estilo propaganda de governo e uma eventual crítica ao prefeito que o sucedeu.

Ao contrário, falou-me sobre como há mais de 20 anos começou um processo que valoriza boa gestão pública focada na construção do futuro e diferentes secretários e prefeitos de distintos partidos mantiveram uma ênfase em bom currículo, monitoramento constante de resultados, com duas avaliações por ano, a criação de uma Escola de Formação de Professores, autonomia de gestão das escolas e metas claras para todos no sistema. Como pano de fundo, inclusive em outras políticas públicas, a crença de que o futuro de Sobral depende de educação de qualidade.

Os resultados continuam melhorando, mas Veveu, o ex-prefeito, acha que ainda há muito o que transformar. Peço exemplos e ele afirma que as expectativas de aprendizagem ainda são insuficientes. Todos podem aprender muito mais.

Esperar muito de todos, mesmo dos mais vulneráveis, e apoiar os professores para que isso aconteça: esta é a receita de Sobral para a construção do futuro. Que outras cidades sigam o exemplo!

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 14/04/2017

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