Caminhamos para a superação da crise. O PIB do primeiro trimestre e a acertada decisão do Bacen em reduzir o juro em um ponto percentual, a 9,25%, sinalizam que o País atravessou um “surto recessivo” entre o quarto trimestre do ano passado e o primeiro deste ano, mas parece já ter saído da fase mais aguda, agora em fase de restabelecimento. Foi um período intenso, profundo, mas relativamente rápido, com a queda nestes dois período ficando em 4,4% na comparação com o trimestre anterior.

Sendo assim, no primeiro trimestre deste ano o mergulho do PIB acabou menor do que o esperado pelo mercado, com recuo de 0,8% contra o trimestre anterior e 1,8% contra o mesmo do ano passado. Neste desempenho, grande foi a contribuição do setor industrial, recuando 3,1% contra o trimestre anterior e 9,3% contra o mesmo período do ano passado. Por este setor, o maior tombo veio da indústria de transformação, recuando 12,6%, com a construção civil recuando 9,6%, seguidos pela retração da produção de máquinas e equipamentos, metalurgia, indústria automotiva, vestuário e calçados. Neste cenário, a retração das exportações acabou tendo papel importante, assim como dos investimentos, diante das incertezas sobre a extensão da crise.

Pelo lado da demanda agregada, os investimentos acabaram levando um grande “tombo”, recuando 12,6% e 14,0%, respectivamente, o que mostra que a retomada da economia deverá ser mais lenta do que o esperado, dada a redução de investimentos consistentes da economia, diante da incerteza da crise. Já as exportações recuaram 15,2% e 16,0%, com as importações recuando 16% e 16,8% em relação ao trimestre anterior e o igual do ano passado, pela retração das demandas, interna e externa.

A falta de um horizonte de planejamento para os empresários foi um claro sinal do estrago feito, mesmo que a extensão da crise não se mostre tão longa assim. A taxa de investimento, em relação ao PIB, depois de fechar 2008 em torno de 18%, deve recuar a 16% neste ano, o que mostra o impacto da crise sobre o planejamento das empresas. Muitos projetos acabaram engavetados, com o chamado animal spirits dos empresários adiado. Isto parece claro quando se sabe que o processo de acúmulo de estoques, neste primeiro trimestre, acabou se mostrando mais longo do que o esperado.

Como as empresas começaram a se programar em meados do ano passado, em setembro, na fase mais aguda da crise, muitos compradores já haviam fechado suas encomendas. Com isto, nesta virada de ano, com a demanda aquém do esperado, muitos se viram abarrotados de estoques, promovendo várias promoções ao longo do primeiro trimestre. Isto, aliás, nos ajuda a explicar o bom desempenho das vendas do comércio, até porque o governo atuou ativamente, no esforço de destravar a oferta de crédito, além do reajuste do salário mínimo, extensão do programa Bolsa Família e nos estímulos tópicos ao setor industrial de bens duráveis, com a isenção fiscal (automóveis, eletrodomésticos (linha branca), etc).

Isto demonstra que os investimentos possuem um prazo de maturação bem mais longo, não respondendo tão prontamente aos estímulos de política econômica, ao contrário do consumo das famílias, que se recuperou da retração do trimestre anterior, com avanço de 2,2% frente ao quarto trimestre do ano passado.

É importante estar atento, também, visto que a prorrogação da redução do IPI deve começar a perder força nos próximos meses, com a indústria automotiva se acomodando num patamar de demanda mais baixo. Esta medida, aliás, parece já ter produzido efeitos, devendo agora mostrar resultados desfavoráveis, diante de uma antecipação da demanda futura, com destaque para o setor automotivo.

Por outro lado, em sintonia com estes estímulos fiscais e monetários, o consumo das famílias acabou menos impactado, avançando 1,3% contra o mesmo trimestre do ano passado e 0,7% contra o trimestre anterior, reforçando esta divergência entre o desempenho da indústria e do comércio. Neste contexto, o crédito avançou 22% e a massa salarial 5,2% no primeiro trimestre deste ano contra o anterior. Sobre este consumo, o setor privado contribuiu com alta de 0,7%, com o setor público respondendo com 0,6%. Neste último, no entanto, a maioria das despesas acabou ocorrendo pelo lado do custeio com a máquina pública, com os investimentos públicos ainda empacados, demonstrando uma baixa qualidade na sua execução.

Desta análise, se tem que o consumo deverá ser o motor da retomada da economia neste ano, mesmo que mais lenta, em função da retração dos investimentos. Embora o consumo represente 60% do PIB, com o investimento com apenas com 16%, o primeiro não se sustenta se não vier acompanhado com mais investimentos. Isto porque, a produção acaba se vendo insuficiente diante de uma demanda crescente, o que pode levar as empresas a reajustarem seus custos e daí os preços dos produtos. Isto acaba recolocando no horizonte o “fantasma da inflação”. Sendo assim, se torna primordial estimular também os investimentos na ampliação das plantas e da produção das empresas para responder a uma demanda maior. Daí, argumentar que o consumo não é consistente com crescimento maior, caso não venha acompanhado de mais investimentos.

Outro fato importante veio com o corte de juro na reunião do Copom do dia 10 de junho, para a maioria, surpreendente, dado este dilema citado acima entre produção e demanda.

Com o juro básico no menor patamar em muitos anos, a 9,25% nominais ou 4,9% reais, a tendência é que os bancos, públicos e privados, acompanhem, mesmo que marginalmente, esta decisão, reduzindo as taxas das linhas de financiamento existentes na ponta do consumo.

Em resumo, o que o panorama econômico doméstico nos mostra é que o Brasil já deve apresentar taxas de crescimento maiores a partir deste segundo trimestre, embora o tombo da indústria tenha sido grande em abril, recuando 14%. Neste contexto, achamos que apenas no segundo semestre voltaremos a ter taxas de crescimento positivas, o que nos leva a prever um crescimento neste ano próximo a estabilidade, podendo ser bem maior em 2010 caso a crise se dissipe de vez. Neste ano, aliás, é preciso lembrar, além da possível normalização no fluxo de comércio e financeiro internacional, dois acontecimentos alvissareiros no desempenho da economia, como as eleições presidenciais e a Copa do Mundo.

Trajetória da Taxa de Juros Real

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