Autor Convidado: Reinaldo Azevedo

Primeira Leitura, 8 de fevereiro Carlos Heitor Cony escreveu, nesta terça, na Folha, sobre a “revolta” dos islâmicos por causa das charges em que Maomé aparece com uma bomba no turbante. Cony aponta “a burrice ou a truculência” de certos setores da mídia que saíram em defesa da liberdade de expressão. Eu saí. E aponto a burrice de Cony e de outros que pensam como ele. Um tanto vexado de defender a censura e preferindo fazer de conta que não está, na prática, apoiando os baderneiros, usa o truque predileto de quem não tem argumento: a comparação. Indaga se seria tolerável a imagem de Mãe Menininha do Gantois fazendo sexo com Ogum ou de uma suástica varrendo os judeus do mapa. O primeiro exemplo é idiota porque a suposta charge só teria sentido se o candomblé fosse uma prática que fizesse a apologia de costumes dissolutos, com suas autoridades religiosas incentivando o sexo sem limites. Alguém precisa explicar a Cony que uma charge extrema características que estão enunciadas na realidade. E, como toda síntese, carrega alguma dose de generalização e até de preconceito. É do jogo. Boa parte das lideranças religiosas islâmicas endossa o “martírio”, que mata inocentes em nome de Maomé e de Alá. Isso é um fato. Por que, numa democracia, estariam imunes à charge? Não duvidem: o desenho não teria sido feito se esses “heróis” matassem apenas a si mesmos, como aquele grupo guerrilheiro homicida do filme A Vida de Brian, do Monty Python. Aliás, seria a glória. Eu os conclamo todos à auto-imolação. Acredito que as virgens os esperarão no paraíso também na hipótese de não levarem consigo alguns inocentes… Lá poderão se aproveitar dos rios de leite e mel. Por que precisam antes fazer correr rios de sangue de quem não compactua de sua crença ou tara homicida? O caso da suástica, evocado por Cony, é uma cretinice de quem fala além das sandálias. Não serve nem como termo de comparação. O exemplo que ele tentou dar foi outro: seria justo associar todo o povo alemão à suástica? Não. A menos que as autoridades alemãs começassem a tolerar o nazismo. Aí passaria a ser, sim, senhores. E fazer uma charge a respeito seria uma obrigação intelectual. A propósito: falarei depois de um caso brasileiro que opõe um militante petista a um senador da República. Não passa dia sem que grupos radicais, sob o patrocínio ou a tolerância de governos islâmicos, associem a cultura e os símbolos judaicos e cristãos a tudo o que há de ruim no mundo. Falemos, por exemplo, um pouco sobre o Hamas. O grupo não ataca apenas os “maus judeus” — o que já seria detestável, posto que se outorgaria o papel de juiz. A exemplo do presidente do Irã, o delinqüente Mahamud Ahmadinejad, o Hamas não quer muita coisa: só a destruição de Israel. E, para tanto, faz duas coisas: organiza-se para ganhar eleições e para praticar atentados. Nos protestos em curso, a estrela de Davi é queimada, e cartazes, seguindo Ahmadinejad, chamam o holocausto de “farsa histórica”. E como a mídia ocidental, inclusive a brasileira, trata esses “democratas”? Com mais compreensão e tolerância do que a que Cony dispensa a chargistas dinamarqueses. A GloboNews, a propósito, acaba de dar uma notícia sobre o Hamas. Ao enunciar o aposto para explicar de quem se trata, mandou ver: “grupo que os EUA consideram terrorista”. Entenderam? O terrorismo é uma questão de ponto de vista. Pessoas se reúnem numa entidade para matar inocentes em nome de sua causa e para destruir um país, mas quem os considera “terroristas” são os EUA… Sejamos isentos, não é? Sejamos neutros! É a regra de ouro do colaboracionismo. Na mesma emissora, um correspondente falou sobre os distúrbios mundo afora promovidos pelos islâmicos. E cravou: “O primeiro país a publicar a charge foi a Dinamarca”. País? Um jornal dinamarquês é tomado por toda a Dinamarca? A Dinamarca é tomada por toda a Europa? A Europa é tomada por todo o mundo ocidental? E alguns cretinos fazem um mea-culpa como se, de resto, tivessem procuração para falar em nome do… Ocidente! Pior: fingem ter alguma representatividade para fazê-lo. Não peçam por mim. Vão se catar! Sobre a baderna, nem uma miserável palavra. Cony se enrola depois numa tentativa de distinguir liberdade de expressão do delito de opinião — pelo qual ele teria sido punido muitas vezes. Topa relativizar o primeiro, mas posa de vítima no segundo caso. A sua liberdade, não sei por quê, vale mais do que a dos outros. No seu caso, diga-se, vale mesmo uma fortuna. Ele já recebeu uma gorda pensão e recebe uma não menos botérica indenização porque os milicos, certa feita, lhe fizeram o favor de impedir que trabalhasse num jornal. Tornou-se um dos homens de ouro de Adolfo Bloch, na antiga Manchete, certamente bem remunerado (o que é justo). Ou estou enganado ou ele já chegou até a escrever sobre o mármore rosa de sua sala, naqueles tempos em que fazia prosopopéias sobre uma cadelinha. Lindo. Mas justiça é justiça: cobrou do Estado uma fortuna pela carreira que teria sido interrompida — interrupção sem a qual não teria sido um dos homens de ouro de Bloch. Com mármore rosa. Cony, a exemplo de Lula, soube transformar a ditadura numa torta de limão. Agora, flerta com a censura e chama de truculento, burro e corporativista quem discorda dele. No mínimo, teria de devolver a bolada que ganhou e abrir mão da régia pensão que recebe todo mês. A única seqüela que a ditadura lhe deixou foi na reputação quando aceitou as compensações.

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