Copas quadradas

A observação tem sido recorrente em rodas de conversa: esta Copa não tem o charme de outras, seja pela ausência de criatividade, de grandes jogadas individuais, seja pela semelhança dos sistemas defensivos e desempenho nivelado das linhas de ataque das equipes. A globalização do futebol deu nisso. Tornou a Copa quadrada. A mesma sensação se aplica à Copa política que aqui teve início, cujos primeiros lances apontam para uma disputa acirrada entre os dois principais contendores, porém sem os toques emotivos que transformavam as disputas do passado em festas cívicas sob a algazarra de grandes plateias nas arquibancadas. Se na África do Sul as vuvuzelas cumprem o papel auxiliar de animar espetáculos pouco vibrantes e coroar resultados previsíveis, por aqui se pode apostar que as cornetas nas ruas serão raras, eis que a formatação do torneio tende a arrefecer a torcida das galeras e a atenuar o impacto da vitória de qualquer figurante no seio social.

O animus animandi de uma campanha política depende, como se sabe, do estado d”alma da Nação. Quanto mais alta a febre de uma população, mais intenso será o calor do debate, mais acaloradas as discussões entre alas simpatizantes e mais acirrados os debates entre postulantes. A recíproca é verdadeira. Apesar da corrosão de certas partes do corpo social, principalmente nos tecidos da saúde e da educação, é forçoso reconhecer que imensas parcelas têm sido amparadas pelos braços assistencialistas do governo sob o empuxo de uma política econômica que abriu as comportas do consumo. Espelho disso é o extraordinário índice de aprovação da figura do presidente da República. Sob a vigorosa arquitetura de proteção social e o escudo da economia se desenvolverá a contenda eleitoral, pelo que se pode inferir situação mais cômoda para quem representa a marca Lula e maior dificuldade para quem lhe faz oposição. A par dessa situação, mais um fator deverá agir sobre o processo decisório: a certeza do eleitor de que, seja quem for o vitorioso, o País deverá continuar nos trilhos.

Esse é um diferencial entre este e outros pleitos. Como se recorda, na campanha de 2002, para tranquilizar o ânimo nacional Luiz Inácio teve de produzir uma Carta ao Povo Brasileiro, com compromissos que serviram de anzol para capturar a credibilidade social. De lá para cá, o temor de que o País enverede por caminhos oblíquos, a partir da adoção de ações radicais e de uma visão ultraesquerdizante, foi diminuindo, a ponto de hoje constituir-se em ponto de interrogação na mente de grupos cada vez mais estreitos. Continua a haver certo receio em relação ao PT, como se pode depreender do encontro da candidata Dilma, na semana passada, com um grupo de mulheres em São Paulo, mas esse partido dá mostras de ter adotado a cartilha pragmática, sem a qual inviabilizaria o arco de alianças em torno de seu projeto de poder. A esses fatos se juntam outros ingredientes, a denotar que a campanha não carreará tanto a emoção das bases. Não se trata mais de apostar no surrado refrão do “Lula lá”. O último perfil carismático não é candidato, apesar do papel de sombra e guarida.

Serra e Dilma, por sua vez, não se enquadram no figurino carismático. De Marina até pode se pinçar ligeiro traço de carisma, a partir da estética cheia de panos que lembra entidades hindus (só falta o sinal na testa). Poderia ser parente de Gandhi. Ou, se preferirem, a representante do povo da floresta é o nosso clone de Avatar. Já Dilma e Serra figuram lado a lado na régua da gestão, disputando a propriedade da expressão técnica, uma estatística para arrematar a ideia, o modus operandi para comprovar conhecimento de causa. Administram uma locução retilínea, sem altos e baixos, dispensando a retórica retumbante dos fechos discursivos. Mais uma razão para o eleitor avaliá-los pela lupa, e não pela veia emotiva. As novidades vão além. Pela primeira vez na história da disputa presidencial teremos uma mulher em condições de ser eleita. Mais: uma mulher que nunca foi votada. Isso será possível?

Nesse ponto emerge a hipótese de o Brasil ter condições de se transformar, com a eleição deste ano, em laboratório da política contemporânea. Eis o argumento. A política mundial atravessa um momento de intensa despolitização e desideologização. A competição política torna-se cada vez menos forte. Os partidos fenecem e o jogo político torna-se embaciado. Sob essa nova ordem, o eleitor não distingue fortes diferenças entre os atores, quando muito, joga-os na balança de suas demandas imediatas. Com as ideologias em franco declínio, o que pesa é a fatura de credibilidade que os contendores exibem para a conta do futuro. O eleitor tende a substituir o menu ideológico pelo cardápio cotidiano, ou seja, comida, remédio barato, transporte rápido, educação de qualidade, sistema de saúde eficiente. O novo lema é: a administração das coisas deve substituir o governo dos homens. Quem é o mais apto na tarefa de administrar o dia a dia? A micropolítica toma o lugar da macropolítica. Essa é a disposição que regerá o processo de seleção. Será escolhido o perfil que melhor corresponda às expectativas dos observadores do jogo, podendo ser alguém com muita experiência ou com pouca experiência. Mas, sobretudo, que reanime as esperanças das massas. O eleitor não vota no passado, mas no futuro.

No arremate da paisagem, veremos na TV uma programação eleitoral também assemelhada. Primeiros planos de caras, abraços e apertos de mão no meio do povo, sorrisos abundantes, larga confraternização, números em profusão, cenas deslumbrantes de campos verdes, colheitas de grãos, complexos industriais, mar profundo e óleo jorrando por todos os lados, debates em que cada contendor será apresentado como vencedor. Não haverá sustos. Teremos no pleito também uma Copa quadrada. Sem grandes emoções. Típica da era Dunga.

(O Estado de S. Paulo – 04/07/2010)

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